São Paulo, 24/09/2021        
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Um tesouro ameaçado
JOÃO SALVADOR


A água já é considerada a grande riqueza do momento, porém, só lhe é dada o devido valor, quando as nuvens retardam em devolvê-la, como está ocorrendo.
Vem sempre à tona a idéia de que, no futuro, as águas brasileiras serão internacionalizadas. O Brasil é bem servido. Possui a maior bacia hidrográfica do mundo e seu potencial de recursos hídricos corresponde a 53% da reserva da América do Sul e de quase um quinto da mundial.
Ela não vai acabar. A que sobe pela evaporação é a mesma que se precipita, para abastecer os mananciais e os aqüíferos freáticos. Mas irregularidade em sua distribuição, em virtude da grande variabilidade climática, acarreta uma grande desigualdade social e demográfica. Quando pura, é sinônimo de saúde, de vida, mas a impura, com tanto resíduos químicos, de dejetos domésticos e industriais, é um canal para doenças.
Vive-se numa época de forte estiagem, e, com sua escassez, muitos a buscam, demasiadamente, pelas perfurações de poços artesianos, o que interfere no lençol freático. Chove em São Paulo, menos no Sistema Cantareira, com índice cada vez mais baixo.
O desmatamento da Amazônia, da Mata Atlântica e dos Cerrados, para o agronegócio, indica uma grande alteração nas frentes de convergência da chuva para outras regiões. Nos rios quase não há mais matas ciliares. Com isso, há o assoreamento e a água passa a correr em filetes. Todos os nossos ecossistemas estão ameaçados pela arrogância, ganância, ignorância e idiotice. Animais silvestres são encontrados nas cidades, desorientados pela perda de seus habitats.
Enquanto as torneiras apenas pingam, em diversos lugares, ela é mais usada para “lavar jatos”, operação da moda em Brasília, no caso da Petrobras.
O que muitos desperdiçam falta para outros. Existem perdas que chegam a 50% ou mais nas grandes cidades, em razão de ligações clandestinas, ineficiência, despreparo, ou do descaso de prefeituras na manutenção da rede de abastecimento. A consciência dos usuários também precisa mudar. A agricultura, setor que mais consome água e que mais desperdiça, precisa fazer a sua parte, ao adotar tecno¬logia adequada; utilizar métodos de ir-rigação que minimizem o desperdí¬cio.
Outras medidas importantes para reduzir a pressão pela demanda, é o reuso, ou fazer um projeto ousado, moderno, com construção de casas, prédios e complexos industriais, com coletores da água da chuva, para o uso geral nas faxinas, jardins e de outras formas.
Diante do alarme disparado sobre as mudanças climáticas, resultante da ação humana, a água é um recurso natural que deve ter uma política séria de gerenciamento, com a proteção infindável dos recursos hídricos. Urge, portanto, encontrar alternativas para potencializar o manejo adequado das bacias, dos mananciais; reduzir o consumo e punir o uso irresponsável em todas os ramos de atividades; canalizar mais recursos orçamentários e financiamentos para programas de saneamento básico e de manutenção dos sistemas de abastecimento, geridos com muita seriedade e competência. Mas tudo isso falta ao Brasil, onde aflora a teia da corrupção, das ações ilícitas de certos políticos e seus apadrinhados. A continuar assim, será muito difícil a geração futura ter o tesouro mais precioso: o inodoro, insípido e incolor.

JOÃO SALVADOR é biólogo
E-mail: josalv@uol.com.br

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