São Paulo, 25/06/2017        
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Florais de Bach para animais
 
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Dose cavalar
JOÃO SALVADOR

Na antiguidade o cavalo foi um animal revolucionário, ajudou o homem nos combates, a derrubar impérios, ajudou encurtar a distância e mudou nossa forma de falar e de vestir. Musculoso, forte, veloz, que até hoje serve de referência pelo seu grau de potência e velocidade, na fabricação dos carros.
Nossos olhos necessitam de brilho, de bela visão, mas vemos muitas coisas tristes, opacas, de maus-tratos ao maior aliado do homem. Há pouco, os muares, principalmente, contribuíam nas operações de campo, como na aração, gradagem e plantio. Portanto, não condiz com os tempos de modernidade, de tecnologia, da era digital, de tantos conhecimentos, o tráfego pelas ruas das grandes cidades, carroças puxadas por cavalos e muares, conduzidos por seres irresponsáveis, imprudentes, cruéis e impiedosos, em trânsito intenso, obrigando-os a se compatibilizarem com o movimento.
Essa exploração desumana já vem há muito tempo e ninguém toma providência. A alegação é a mesma de sempre, a de que se trata de um meio de sobrevivência dos mais pobres, dos injustiçados pela desigualdade social. Mas quando questionados sobre essa brutalidade, grande parte desses miseráveis justifica que as chibatadas são feitas quando o animal é preguiçoso, desobediente e recusa-se a realizar o serviço.
Para quem vê este tipo de conduta é triste, lamentável, ao perceber que alguns nem respondem mais aos comandos por causa da idade, do cansaço, da fraqueza, das costelas salientes e da extenuação, frente às cargas excessivas a que são submetidos, por longo tempo. Muitos são mal alimentados, anêmicos, mal ferrados, carentes de cuidados veterinários, e mancam devido às infecções nas patas, agravadas pela escaldante temperatura do asfalto. Após a tortura, do espancamento e dos ferimentos expostos no lombo, chegam a curvar, a tombar, a desmaiar, tamanha a exaustão, mantendo a subserviência com resignação; fêmeas prenhes que acabam abortando diante de um trânsito infernal e o carroceiro continua a impor-lhes o martírio.
Outros, ainda, são conduzidos por marmanjões, de pivetes bêbados, drogados, que liberam a tara do sadismo nos pobres coitados, açoitando-os com chicotes, madeira e borracha, que lhes deixam visíveis as marcas de dor. Nas instâncias turísticas, esses animais chegam a trabalhar enquanto houver a luz do dia, tendo de suportar, às vezes, o peso de 300 quilos, que significa o peso da charrete, o do charreteiro e turistas, quase não lhes sobrando tempo para comer e saciar a sede.
Destino cruel. Quando não há reconhecimento pelos serviços prestados, são descartados ou abatidos, sem piedade. É um panorama de todo o Brasil, sem regras, sem normas, e ninguém responde ou pune pelos atos de crueldade.
Está na hora de acordar, de respeitar os seres que não têm como pedir respeito e direitos. Leis existem, mas há que cumpri-las, aperfeiçoá-las, no sentido de coibir as barbáries e disciplinar o trânsito de carroças e fiscalizar. Animais não funcionam como uma máquina. Precisam, sim, de lubrificante, o do tratamento digno. Vamos abraçar essa causa, pois, ter somente pena, compaixão, não resolve. Vamos agir, repudiar atos cruéis dos que os praticam e dos que os ignoram. Cobrar das autoridades.

JOÃO SALVADOR é biólogo
Cena – Centro de Energia Nuclear na Agricultura- Piracicaba - SP..
salvador@cena.usp.br

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