São Paulo, 18/12/2017        
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Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
Agricultura e ambiente
JOÃO SALVADOR
EURÍPEDES MALAVOLTA (in memoriam)
ANDRÉ M. L. NEPTUNE (in memoriam)

A agricultura é a arte de perturbar os ecossistemas, em termos econômicos, sem causar danos irreversíveis. Há mais de dez mil anos o homem vem alterando-os, com a domesticação de plantas e animais. De catador de grãos e caçador de animais silvestres, como meio de obter seu alimento, substituiu cerca de 40 milhões de búfalos das pastagens norte-americana pelo gado de corte e trocou os cangurus da Austrália, pelo gado europeu, ou por ovelhas. Devastou florestas e semeou milho, arroz, trigo e, há pouco, no Brasil, retirou as árvores tortuosas do cerrado, corrigiu o solo e passou a cultivá-lo e continuará a fazê-lo enquanto perdurar a tendência do aumento de bocas humanas no mundo. Sem essa perturbação, a população atual, provavelmente, não passaria dos 10 milhões de pessoas.
Se comer é preciso, preservar também o é. Para tal fim, é primordial uma consciência multidisciplinar.
As pragas e doenças agrícolas originaram-se a partir do momento em que o homem passou a derrubar as matas para se tornar membro de um sistema produtivo de alimentos, para se sustentar ou obter sua independência econômica, através das grandes colheitas. Jamais imaginou que estava interferindo na interação entre espécies, no seu equilíbrio ecológico. Enquanto os insetos evoluíram por uma progressão orgânica, o homem o fez por modificações culturais e aprendeu com os erros do passado.
Se a agricultura é uma geradora de pragas, o homem é o maior disseminador, seja por curiosidade, ignorância ou má-fé. Transporta em sua bagagem, mudas, sementes, borbulhas, estacas, enfim, qualquer material exótico para propagação. Organismos indesejáveis chegam de carona e, uma vez introduzidos, rompem a barreira natural e efetiva, constituída por mares, desertos e montanhas. Em novo local, com condições favoráveis, sem a presença de inimigos naturais. A explosão e dispersão são inevitáveis.
As práticas culturais e de armazenamento, quando inadequados, também as favorecem, pois pragas tidas como secundárias, evoluíram para formas mais bem adaptadas geneticamente, transformando-se em agentes biológicos de grande importância.
Países vizinhos podem “exportar” potenciais invasores que, ao adentrarem nas lavouras brasileiras, a qualquer momento, poderá causar estragos bilionários nas próximas safras, a exemplo da lagarta helicoverpa, que ataca a soja, algodão, milho, girassol e milheto e da ferrugem asiática da soja.
O jeito é discutir estratégias de combate ou controle dessas “pragas exóticas”, através de um plano efetivo de prevenção. Quando se identifica e estuda imediatamente os intrusos, é possível fazer um controle eficaz, com produtos específicos, autorizados. De nada adianta o uso indiscriminado de agroquímicos, pois, além da praga ganhar resistência, aumenta-se a contaminação ambiental.
Com as inovações tecnológicas, a partir da revolução verde dos anos 60 e 70, idealizada por Norman Borlaug, bate-se recordes de produção de grãos, mas ainda há muito que aprender, a ensinar, sem engessar as pesquisas científicas. Neste campo, a biologia molecular e a engenharia genética, podem fazer a diferença, a de não dar oportunidade aos inimigos, que roubam quase 30% da colheita. Aos imortais rendo-lhes minhas homenagens.


JOÃO SALVADOR é biólogo da USP
E-mail: salvador@cena.usp.br
EURÍPEDES MALAVOLTA-Professor catedrático do Cena, ex-diretor da Esalq.
ANDRÉ M. L. NEPTUNE- professor catedrático da Esalq/Cena/USP

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