São Paulo, 19/11/2017        
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DEBUSSY E O ESOTERISMO FERVILHANTE DA "FIN DE SIÈCLE"


Na virada do século XIX para o XX, eclodia em Paris um notável movimento artístico, o Simbolismo, que vai beber no esoterismo e na espiritualidade no afã de estabelecer uma ligação concreta entre as manifestações artísticas e as verdades essenciais veladas pelo Ocultismo. As livrarias parisienses tornam-se verdadeiros bastiões dessa nova estética e nelas se reúnem artistas que comungam desses mesmos ideais. Uma delas, a L’Art Indépendant, de Edmond Bailly, tem entre seus ilustres frequentadores os pintores Edgar Degas, Henri Toulouse-Lautrec e Odilon Redon, os místicos Augustin Chaboseau, Papus, Stanislas de Guaita e Joséphin Péladan, o músico Érik Satie e os poetas Stéphane Mallarmé, Pierre Louÿs e Victor-Émile Michelet. É precisamente Michelet quem nos diz, a respeito do compositor Claude Debussy, que “podendo se expressar livremente na livraria, Debussy deixou-se impregnar profundamente pela filosofia hermética (inclusive por antigas teorias egípcias de magia e alquimia)”.


Debussy, o grande nome da música naquela virada de século, não ficou portanto refratário a esse movimento. Tendo um interesse muito grande pelo ocultismo e por cabala (conforme atesta sua correspondência com Maurice Bouchor), estabeleceu laços de amizade com muitas dessas personalidades, notadamente com a célebre ocultista Emma Calvé. É ela possivelmente quem leva o compositor ao cabaré Chat Noir (Gato Negro) – que era frequentado por, entre outros, Alfons Mucha e Camille Flamarion –, onde ele virá a conhecer Érik Satie. O primeiro contato de Debussy com o Rosacrucianismo parece datar da época de sua ida a Roma, onde permaneceu por pouco mais de um ano após ter ganho o prestigioso Prix de Rome. De lá, diz-nos o biógrafo Edward Lockspeiser, ele pede a Emile Baron que lhe envie revistas simbolistas e a Rose+Croix, editada pelo cabalista Albert Jounet.

É precisamente no princípio dos anos 1890 que, junto com Satie, Debussy se iniciará no movimento rosacruz estabelecido por Joséphin Péladan. Também data dessa época a sua colaboração musical com o ocultista e dramaturgo Jules Bois e com Villiers de l’Isle-Adam, outro frequentador da L’Art Indépendant e autor da peça Axel, de contornos rosacruzes, sobre a qual Debussy esboçará uma ópera. Em Axel, peça que Michelet deriva de Dogma e Magia Ritual, de Éliphas Lévi, abundam as referências ao pantáculo e à proporção áurea, que encontraremos em muitas composições de Debussy, notadamente na virtuosística L’Isle Joyeuse e no célebre Clair de Lune. Roy Howat, autor de um magnífico estudo sobre Debussy e a proporção áurea, relata que uma das novelas de Péladan, Le Panthée, cujo personagem principal é um compositor que trabalha constantemente em sua “Sinfonia de Ouro”, inspira-se na relação do autor com Debussy e Satie.

Mesmo após romper com Péladan, é provável que Debussy tenha continuado discretamente seu envolvimento com o mundo do misticismo. À parte alguns relatos altamente controversos que dizem que ele teria sido Grande Mestre de uma [pseudo]-ordem chamada Priorado de Sião, a soprano inglesa Maggie Teyte, amiga do compositor, relata que em 1907, quando ela o conheceu, “ele ainda estava envolvido em atividades esotéricas, incluindo Egiptologia esotérica”. Além disso, o compositor e ocultista inglês Cyril Scott afirma que Debussy teria inconscientemente reproduzido em sua obra, através da música javanesa e por influência dos “Altíssimos”, cantos templários dos atlantes, sobretudo no segundo de seus Noturnos para orquestra: Fêtes.

Se por um lado Debussy efetivamente não chegou a produzir nenhuma obra intencionalmente esotérica, é evidente que seu pensamento musical e alguns de seus ideais artísticos e humanos estavam embebidos de uma filosofia superior, que se não chegou a manifestar-se plenamente em sua vida pessoal, foi apenas por força de um caráter impulsivamente independente e por vicissitudes de sua existência material. Lembremos que ele chegou a defender a ideia da criação de uma “Sociedade de Esoterismo Musical”. Seus ideais, assim como sua criação artística, jamais se curvaram às necessidades materiais e nunca fizeram concessão ao gosto popular mediano ou àquilo que fosse simplesmente medíocre.
– RAUL PASSOS - músico, tradutor, poeta.
www.raulpassos.mus.br
http://raulpassos.blogspot.com.br

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