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Questão de ética - Sônia T. Felipe
Dieta insana
28 de maio de 2013 às 8:40
O sujeito quer dar uma virada na sua vida. Quer fazer algo para o bem. Algo que dê finalmente à sua existência um éthos ou caráter, uma marca da qual ele não pretende se livrar. Quer tomar uma decisão radical, para limpar de sua vida o que representa o descaso em relação à vida, ao bem próprio e à liberdade e direitos dos animais. Então, certo de que abolir da dieta todos os alimentos que contenham derivados de animais mortos ou vivos é sua decisão moral prioritária, o sujeito dá início à sua nova vida, moral e gastronomicamente.

No desjejum, abre um pacote de cereais processados, uma caixinha de suco de frutas processado, ou de leite de soja industrializado, carregado de glifosato. Junta isso numa tigela e come. Feliz. Conseguiu comer sem precisar de pão que tem leite e ovos na massa, ou manteiga para passar nas fatias. Não precisou botar leite no café. Não usou queijo no sanduíche.

No lanche, pela metade da manhã, consegue uma esfiha sem queijo, assada e com recheio vegetal. Come. Venceu a segunda armadilha do dia, sem violar sua decisão de jamais voltar a comer coisas de origem animal.

No almoço, vai direto ao balcão de serviço de auto atendimento e faz seu prato com massa, arroz branco, batata frita, uma ou duas colheres de feijão, uma folha de alface, duas rodelas de tomate bastante azeite de oliva e umas salsichas defumadas veganas.

Pelo meio da tarde volta a comer um empanado sem recheio de derivado animal.

À noite sai com os amigos, que são todos onívoros, e vai a um desses restaurantes fast food que qualquer um pode imaginar o nome. Lá não há muitas opções. Então o sujeito pede uma dupla porção de batatas fritas.

Dieta insana não tem nada a ver com dieta vegana.

O que está faltando nessa dieta? Tudo. Tudo o quê? Tudo o que vem da horta, da lavoura e do pomar. Não vi o sujeito comendo abóbora, batata doce, nabo, quiabo, vagem, beterraba, cenoura, pimentão, lentilhas, arroz integral em qualquer que seja a cor, aveia, castanha, amendoim, coco, abacate, manga, mamão, maçã, laranja, limão, uva, figo, amoras. Vi o dia todo carboidratos processados e refinados para os lanches e muita comida industrializada ou feita com óleos industrializados.

Dieta vegana é dieta que segue os tons do prisma solar. Que prima pelas cores, porque cada uma delas resultou de um trabalho realizado pelo sol naquela matéria alimentar específica, pela fotossíntese. Não é possível ter saúde comendo junk food. O máximo que vai acontecer é depois de dois ou três anos o sujeito entrar num consultório médico descompensado nutricionalmente, e então, para se fazer de vítima diante do médico, dizer que está assim porque é … “vegano”. Não. Não é. É insano. Nada a ver com vegano, a não ser a rima das duas últimas sílabas.

Brinco seriamente com a metáfora de que o primeiro animal de estimação que recebemos para cuidar é nosso corpo. Esse é o animal que precisa receber cuidado e nutrição. O resto ele sabe fazer direitinho, coisa que nós não sabemos. Ele sabe metabolizar todos os elementos que formam a cadeia proteica, se ingerirmos alimentos de origem vegetal variados em sua cor, textura e origem: da lavoura, do pomar e da horta, vermelhos, verdes, amarelos, laranjas, roxos, brancos, marrons.

Se não sabemos alimentar nosso corpo, como vamos ter saúde para cuidar dos corpos dos animais que dizemos querer proteger e defender?
Quando aparecem os casos de insanidade alimentar, que, repito, não devem ser confundidos com veganismo, logo a mídia usa o exemplo dos insanos para construir na mente de todo mundo a contrarreferência, para assustar toda gente sobre o risco de anomalias caso alguém se torne vegano.

Ninguém fica doente ou descompensado por adotar a dieta vegana, pois ela abre o leque de todos os alimentos para compor as gorduras, o açúcar, as proteínas, os minerais e as vitaminas necessárias à renovação celular contínua e manutenção dos níveis de energia que garantem as funções vitais básicas e a produtividade. Só fica descompensado quem se alimenta de modo insano. Se consumidos em variedade e regularmente, os vegetais oferecem as proteínas essenciais ao nosso organismo e esse se encarrega de sintetizar as não essenciais de modo que não podemos nem compreender.

A Organização Mundial de Saúde e a Faculdade de Medicina de Harvard, bem como o Conselho Regional de Nutrição da 3ª. Região (Goiás e São Paulo já reconheceram a dieta vegana como uma dieta completa, desde que os veganos gostem de comer de tudo. Mais recentemente, John A. McDougall escreveu o livro: The Starch Solution, no qual defende que a dieta baseada em carboidratos integrais naturais, de cores e formas variadas contêm os nutrientes necessários à manutenção da nossa saúde. Corroborando a posição de McDougall, T. Colin Campbell acaba de publicar o livro: Whole: Rethinking the Science of Nutrition. Ambos defendem a dieta radicalmente vegana, ressalvando que tal dieta não inclui carboidratos refinados e processados, nem óleos extraídos de cereais ou das oleaginosas. São dois livros que urge traduzir para o português. Vão ajudar os onívoros a entender como é que nós, veganos há mais de uma década, que seguimos os parâmetros da dieta vegana preconizada por esses médicos que tratam seus pacientes apenas com alimentos vegetais naturais, curando-os de todas as doenças, estamos saudáveis e ativos, enquanto muitos deles, na nossa idade, já não passam o dia sem ter que ingerir pelo menos uns cinco comprimidos para sanar males causados nos últimos trinta anos pela dieta padrão onívora galactocarnista adotada ao redor do mundo.

Notícias de pessoas que se reproduzem e se negam a oferecer alimentação natural saudável para seus bebês deveriam ocupar as páginas da medicina mental, não as da polícia. Essas pessoas não são veganas, são simplesmente insanas. Se comessem animais e derivados, provavelmente estariam cheias de mazelas desse tipo de alimentação, pelas mesmas razões pelas quais adoecem ao abolirem de seus pratos todos os derivados de origem animal, esquecendo-se de compensar os nutrientes com outros de origem vegetal. A deficiência da vitamina B12 é hoje um fenômeno comum a mais de 50% da população brasileira onívora, conforme o alerta o Dr. Eric Slywitch em seu livro mais recente, Guia das dietas vegetarianas para adultos, disponível online.

Até neste ponto, o único da dieta vegana que requer reposição de uma vitamina, não se pode apontar para a dieta como a culpada e sim para o uso de biocidas em todas as plantações, tornando o solo morto no que diz respeito às enzimas necessárias para a assimilação e fixação dos nutrientes naturais que antigamente estavam presentes nesse solo, dispensando os vegetarianos radicais então de terem de ingerir a B12. Quando alguém se recusa a repor a B12, podem crer, essa pessoa está lidando ainda com o velho conceito de que o solo onde os alimentos são cultivados está repleto da bactéria que forma a B12. Esse é o único erro da pessoa. Crer que ainda temos comida cultivada em solo rico. Não temos. Os solos estão mortos. Então, o certo é repor a B12, buscando a que não tenha componentes galactogênicos, como a lactose, a galactose ou seja lá o que for como carreador da cianocobalamina.

Vamos ajudar a todos a serem veganos, não, insanos!

Fonte: www.anda.jor.br
Sônia T. Felipe
Doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz (Alemanha), pós-doutorado em Bioética-Ética Animal (Lisboa), co-fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC), ex-voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis. Membro do Bioethics Institute da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento, e investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Autora das obras: Por uma questão de princípios; Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas; Galactolatria: mau deleite – implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino.



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