São Paulo, 16/10/2017        
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Uma picadinha não dói
JOÃO SALVADOR

Além de competir com o homem pelo alimento, os insetos matam mais do que muitas guerras. O ressurgimento de certas patologias, tendo-os como vetor, demonstra que um ecossistema não é determinado por seu tamanho, mas por sua estrutura e seus padrões de organização. Em desajuste, muitos de seus membros se associam ao ambiente urbano e, livres de predadores, transformam-se em pragas, como o mosquito Aedes, vetor do vírus da dengue. A fêmea é a picadora para obter proteína à sua prole. Ao sugar, cospe a saliva, com uma série de substâncias analgésicas e anticoagulantes, que a ajuda a não ser notada. Neste processo, as partículas de vírus são injetadas na corrente sanguínea do doador, junto com a saliva. Em 45 dias de vida, uma única fêmea pode contaminar até 300 pessoas.
Uma picadinha dói sim, na fase infectiva, a pessoa picada, sem resistência, sente-se surrada, pela febre alta, dores de cabeça, cansaço, dor muscular e nas articulações, indisposição, enjôos, vômitos, manchas vermelhas na pele, dor abdominal, principalmente nas crianças.
Na prática, um percentual muito pequeno do mosquito está infectado. Em primeiro lugar, nem todas as fêmeas picam uma pessoa com o vírus, e, em segundo, nem todas as infectadas sobrevivem até o momento em que se tornam infectivas, fase da transmissão. O ovo pode sobreviver até 450 dias, mesmo se o local onde foi depositado estiver seco, mas se ativará assim que receber umidade suficiente, podendo atingir a fase adulta em um espaço de tempo entre dois a três dias. Para preservação da espécie ela faz a postura em diversos criadouros, o que pode dar origem a 1.500 mosquitos durante a sua vida. Se estiver infectada, ao realizar a postura de ovos, há a possibilidade de as larvas já nascerem com o vírus, processo chamado de transmissão vertical.
Esse alvinegro, com suas perninhas zebradas e de manchas brancas dorsais, chegou a ser considerado extinto do território brasileiro, por ocasião do combate à febre amarela, mas ressurgiu na década de 70, pelas falhas de programas e desativação de estruturas de combate.
De hábito diurno, os ataques são planejados nos horários mais frescos - cedo e à tarde - e se esconde nas horas mais quentes. Voa baixo, cerca de 1,20 m de altura, concluindo-se que pés e pernas são os alvos mais comuns. Não respeita demarcações, limites ou fronteiras, de maneira que, de acordo com sua procedência, pode carregar em sua bagagem diferentes estirpes viróticas, o que dificulta a produção de uma vacina. No momento são conhecidos quatro tipos de dengue, três desses sorotipos já circulam no Brasil.
Sem larva não há mosquito e sem mosquito não existe dengue. A solução é a prevenção, pelo controle eficiente da praga em todos os seus estágios biológicos, diante de um plano interativo. Mais do que o controle, deve existir agentes multiplicadores nos órgãos públicos, na preparação constante de profissionais para a promoção de eventos de educação, de conscientização, com palestras nas escolas, campanhas nas ruas, na da imprensa e uma fiscalização soberana, demonstrando que a picada é indolor, mas seu efeito pode ser muito dolorido.
A fiscalização deve agir e contribuir na orientação, na prevenção para evitar e eliminar os focos domiciliares do vetor, com a ajuda da população consciente de seu dever, o de manter a eficácia da integração. É preciso incutir na cabeça dos cidadãos que o combate à dengue deve ser sistemático, todos os dias, a qualquer hora, o ano todo. Se a dengue pode matar, não se deve, jamais, acumular óbitos ou sofrimentos, pela inoperância das autoridades e da consciência coletiva. Todos devem fazer sua parte.
JOÃO SALVADOR é biólogo
josalv@uol.com.br

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