São Paulo, 25/06/2017        
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O sonho não acabou
JOÃO SALVADOR

Em 22 de março de 1963, os Beatles lançaram seu primeiro álbum. Quarenta e nove dias depois, “Please Please Me” os consagraria como a banda mais jovem a chegar ao topo na lista dos mais vendidos, com o vinil de estreia. Na época houve rupturas, mudanças de pensamentos, a emancipação de uma geração de inocentes. Os adolescentes buscavam se desvincular da opressão, através de uma revolução de comportamento, do desapego ao conservadorismo padrão, do moralismo radical. A velha-guarda criticava os cabelos longos e as minissaias, com chacotas absurdas. Mas, quem tinha o cabelo na testa era o dono da festa.
No Brasil, houve uma efervescência com a chegada do iê-iê-iê, que vem do yeah-yeah-yeah de “She loves you”. Formaram-se, aqui, grandes grupos musicais: Eco 2000, Os Cambitos, Os Finders, Super Som7, Os Infernais, Os Geniais...
Belos tempos, belos dias. Do Domingo na Vila, na sede do C. A. Piracicabano, comandado pelo saudoso Ary Pedroso, onde eu cantava os sucessos da época, acompanhado por algumas dessas bandas. Loucura plena, quando o querido apresentador dizia: “Agora, com vocês, o meu amigo João Salvador”! E as macacas de auditório, os autógrafos? Puro êxtase!
Antes de entrar para Os Geniais, formamos um quarteto (Eu, Álvaro, Assis e o Cella) para tocar e cantar os famosos hits da época.
Minha irmã Cidinha diz: “Ao olhar para trás, sinto saudade dos momentos marcantes de meu passado. Bem jovenzinha, quase ainda uma menina, tive contatos com pessoas, cuja “droga” era a alegria de viver, mas com música. Na época os grupos musicais eram chamados de conjuntos, e meu irmão João fazia parte de um deles. Os dias de ensaios eram esperados por toda vizinhança, com orgulho de ter algo assim, fazendo parte do bairro, apesar da barulheira. A casa era pequena, mas muito acolhedora e todos faziam sua parte. Meus pais, dentro da simplicidade, cediam o espaço para que todos ficassem à vontade, e daí, rolava o som. A aparelhagem não tinha tanto recurso como as de hoje, mas todos os integrantes do conjunto se empenhavam para que tudo saísse bem. Beatles, Rolling Stones, eram os preferidos de meu mano, que se esforçava, arranhando um inglês, só para inglês ver, já que naquele tempo não existia a facilidade de frequentar cursos como hoje. Eu ficava na torcida para que rolasse repertório de Leno e Lilian e Silvinha, para que eu pudesse dar uma “palhinha”. Soltava a minha pequena voz, vibrando com tanta emoção, contagiando os presentes. Era muito gratificante ver o meu irmão e seus amigos sorridentes ao fazerem o que mais gostavam: cantar e encantar. A torcida se entusiasmava com a energia radiante, ao som das músicas da jovem-guarda. Os assistentes se embalavam, parecendo uma orquestra ou um coral de pessoas felizes e sabiam disso. O novo ensaio era esperado com muita ansiedade pela galera. Esses momentos felizes estão gravados em minha mente, fazem parte da minha história, e me orgulho muito. Sou grata ao irmão, que carinhosamente, o chamo de Johnny. Nesta nossa trajetória, muitas pedras rolaram, mas o amarei eternamente pelos momentos mágicos que me proporcionou”.
Nostalgia à parte, quando entrei para os Geniais, enquanto o Jura cantava as músicas de Roberto Carlos, eu cantava Beatles. Lembro-me que numa brincadeira dançante, todos deixaram de dançar para ouvir e ver-me cantar Hey Jude. Quase não havia mais gogó. Com a gritaria, imitando o Paul, 15 minutos não bastavam para completar a música. Pediram bis, ufa! Cabelos longos não uso mais, nem toco mais minha guitarra enfim, (...). Meu carro não é vermelho, nem uso mais espelho para me pentear, mas o sonho não acabou. Agradeço a “menina linda, de olhos azuis, encantadora, da qual tinha pena ao deixá-la em troca das brincadeiras dançantes noturnas. Hoje ela entende, é a minha esposa.

JOÃO SALVADOR é biólogo.
E-mail: josalv@uol.com.br

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