São Paulo, 18/10/2017        
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Florais de Bach para animais
 
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E o concreto venceu...
Ivana Maria França de Negri

Já faz muitos anos que eu comprava verduras e legumes numa horta localizada perto de casa, num terreno dentro da antiga “chácara do Vevé”.
Verduras fresquinhas, colhidas na hora, ainda rescendendo a terra e orvalhadas pelo sereno da noite. E meu carro ficava com um perfume delicioso, mistura de hortelã, salsa e manjericão.
Regadas com água limpa, as hortaliças eram viçosas e repolhudas.
Em casa, ao lavá-las, eu e minha netinha pegávamos com cuidado alguma joaninha ou besourinho incautos que vinham agarrados às folhas e os colocávamos a salvo num vaso do jardim. Sinal de que não aplicavam produtos nocivos na plantação.
Além das folhosas como alface, almeirão, rúcula, couve, chicória, catalônia, agrião, também havia brócolis, acelga, tomate, chuchu, couve-flor, abóbora, batata e até ovos de galinhas criadas soltas.
Dependendo da época do ano, apareciam produtos como laranja poncã, mexericas doces, inhame, mandioca e maracujás.
Era uma alegria parar lá e visualizar a horta, um verde imenso a se perder de vista. E a dona Lourdes, sempre atendendo com carinho todo mundo. Havia vasos de plantas e até roseiras enfeitando o local. Uma trepadeira com flores lilases e roxas na entrada e primaveras floridas.
Já faz um tempinho que o terreno foi requisitado de volta porque o local será utilizado para a construção de edifícios de apartamentos. Algumas estacas iniciais já estavam fincadas e um outro lugar foi arranjado para a horta, só que bem menor e num local mais movimentado.
E finalmente, no último sábado, foi o derradeiro dia de atendimento aos assíduos fregueses.
Ao ver o verde totalmente arrancado, a terra vermelha exposta como uma chaga, me doeu o coração. Uma aflição inexplicável ao ver os possantes tratores passando por cima de tudo, não deixando nem um brotinho verde que fosse.
Pensei comigo: o concreto venceu, mais uma vez...
No mundo atual, o progresso é necessário e o verde, torna-se secundário.
Daqui do meu prédio, contemplo as mudanças da cidade. Quando me mudei, não havia nenhum condomínio nas cercanias do rio. Hoje já são quatro e outros já estão sendo construídos. As construções apareciam timidamente, uma aqui, outra acolá. Hoje, pipocam em toda paisagem. Novos condomínios nascem todos os anos e crescem numa rapidez assustadora.
O rio continua a correr, as brumas do véu da noiva ainda pairam sobre as cachoeiras, mas a mata ciliar, cada vez mais acuada, o verde teimando em sobreviver e o concreto reinando soberano e tomando conta de tudo.
Mas, até quando?...

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