São Paulo, 26/09/2017        
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Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
Coisas de cão
JOÃO SALVADOR

Depois de muitos anos de convivência, os amantes de um animal acabam enquadrando-o como um membro da família e sofrem com sua perda. Lembro-me quão desconcertado fiquei quando perdi o meu parceiro, o cachorrinho Woody, depois de 16 anos de convívio. Pudera, quando eu o acariciava minhas mãos pareciam-lhe a leveza da paz, minha presença movimentava seus sentidos e quando eu saía, percebia, claramente, o vazio enorme que lhe restava. Jamais me esqueci do seu meigo olhar, de obediência aos meus comandos. Se para muitos existem um onipotente espiritual, eu era o seu, mas encarnado.
Embora muitos sejam contra a humanização dos animais, pela perda de sua referência, de seu instinto, confesso que não consigo adotar a prática.
Sou contra, sim, as tortura pelos quais passam em eventos circenses, novelas, propagandas e filmes, que os transformam em atores rentáveis para o bicho-homem, sob os aplausos de uma platéia ingênua. Outros, ainda, vestem-lhes, arranjam parceiros sexuais e fornecem-lhes tudo que os humanos gostam. Desta forma, o animal perde sua identidade e acaba sofrendo dos mesmos males dos humanos, ao somarem hábitos nocivos, que determinam as doenças crônicas, características de velhice humana, como obesidade, cânceres, diabetes, cataratas, cardiopatias e problemas renais. Existem registros de cães e gatos neuróticos e irascíveis, como reflexo do comportamento do dono.
É uma pena usar animais para os conflitos humanos. Alguns são kamikazes e morrem em defesa da vida de policiais e de bandidos. É condenável também, qualquer tipo de comércio de animais, principalmente o clandestino, que, além de tratá-los como um negócio lucrativo, despeja-os no mercado, sem avaliar o perfil dos compradores. Os que compram como brinquedo para o filho ignoram que, quando retirados de seu ambiente, precisam de adaptação, de muitos cuidados, que dão trabalho e necessitam de carinho e de atenção, também envelhecem. Sem a atenção para essas etapas, no primeiro entrave o cão é descartado como se fosse um objeto, sem qualquer valor.
O termo “possuir”, envolve o autoritarismo, o especismo, a verdadeira versão antropocêntrica, que submete as demais espécies. Não importa o tempo, mas, sim, o tempo que se deve ter para doar e receber carinho de um animal, uma necessidade de troca, diante da vida agitada, racional, violenta e fria.
O relacionamento demanda deveres, os de fornecer-lhe alimentação, água, higiene, um abrigo adequado, além do tempo a ser reservado para os passeios e brincadeiras, além dos cuidados veterinários para a segurança de todos.
É através do corpo e dos latidos que o cachorro fala. A linguagem é o forte dele, por isso preste a atenção na sua postura quando falar com ele. Os sinais chamam a atenção do dono e o ganido é sempre para alertá-lo de um perigo.
Esse texto, homegeia todos os animais que convivem ou conviveram comigo, especialmente o Woody. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar, aguarde.

JOÃO SALVADOR é biólogo
josalv@uol.com.br

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