São Paulo, 23/08/2017        
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É pau, é pedra, é fim do caminho...
JOÃO SALVADOR
Investimentos de R$ 66,6 milhões que incluem verba de origem federal aguardam a conclusão de licitações ou a elaboração de projetos, à época em que as chuvas mataram mais de 900 pessoas na região serrana do Rio e 71 em Petrópolis. Em todo o país, dos R$ 5,7 bilhões autorizados para programas relacionados a desastres, só R$ 1,9 bilhão (33%) foi pago em 2012 (Folha de São Paulo). São entraves burocráticos, que represam os recursos, com promessas sempre renovadas, enquanto as reprises das tragédias continuam matando e desabrigando famílias dos morros.
Enquanto isso, assiste-se pela mídia televisiva, o horror das pessoas à procura dos soterrados, em um lugar desolado, cheio de lama, escombros que, há pouco, constituíram o lar de alguém.
Pode parecer, mas não voltamos no tempo. Não estamos em janeiro de anos anteriores. Estamos em março de 2013, o mês em que a pluviosidade é grande. São as águas de março fechando o verão, como diz a música de Tom Jobim. A natureza não engana ninguém, ela se repete em seu ciclo normal de funcionamento, não respeita as encostas de morros, compostas por uma faixa tênue de terra, misturada com blocos de rochas e de rochas matrizes, essas impermeáveis à água. Sem poder se infiltrar na camada rochosa, a mais fina é encharcada e escorre pela ação da gravidade, arrastando tudo morro abaixo.
A culpa não é da chuva, mas de graves problemas sociais e de ordem política, que permitem a ocupação dessas áreas; o governo estadual (ou o federal, ou ambos) anuncia que repassará verbas emergenciais para o local castigado. O grande problema urbano é que a população de baixa renda é empurrada para a periferia, em razão do inchaço urbano. Sem opção, resolve arriscar a vida sob um teto mesmo inseguro e irregular, induzido pelos especuladores imobiliários.
Neste sentido, o poder público, seja de qualquer esfera, deve exercer o seu papel, com base numa assessoria técnica e competente parcerias com as universidades, no aprofundamento de um estudo, com o objetivo de criar mapas geotécnicos, hidrológicos, de uso de ocupação dos solos e reconstituir, urgentemente, a vegetação. Após um mapeamento das situações de risco, é só impor um mecanismo fiscalizador, no sentido de coibir as atividades predatórias do meio físico e as formas de ocupações irregulares, até que seja possível promover uma reforma urbana mais digna, mais humana e justa.


JOÃO SALVADOR é biólogo
josalv@uol.com.br

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