São Paulo, 25/06/2019        
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A ‘vista-grossa’ que não vê os animais lá na ponta
Marcio de Almeida Bueno

por Marcio de Almeida Bueno
Me preocupam os debates, que ora pululam nas redes sociais, sobre veganismo / libertação animal / antiespecismo que abrem exceções, na exceção em que propomos, preocupados que somos com os animais. Sempre em benefício humano, com o silêncio dos não humanos lá longe, na outra ponta da gangorra, estão as brechas tão defendidas.
Tolerar traços de produtos de origem animal em comida industrializada, e ainda fazer propaganda disso. Como se a presença – em quantidade determinada pelo fabricante, não pelo consumidor – fosse indiferente, e não garantisse um consumozinho constante de tudo aquilo que, no discurso, se abriu mão de ingerir. Como se não significasse que alguém percebeu o nicho de mercado que abriu, e sequer se preocupou em oferecer algo 100% isento, imune, produzido com fórmula adequada, diferente dos seus demais produtos, contaminados pelo deboche aos direitos animais. Quem está colocando moedas no cofrinho dessa gente, mesmo? Morre, se não comer bolachinha recheada?
Relativizar o mel, como se o manejo de animais, feito de maneira boazinha e ecológica, pudesse ser aceito – troque abelha por vaca, e aí todos gritarão. Espero. Pois se em princípio o uso dos animais não humanos passa a ser visto, a pau e corda, como condenável, a submissão desses à humanidade não está atrelada ao critério morte, dor, tortura, confinamento, opressão, necessariamente. Quem fiscaliza se aquele mel hippie entra nos critérios – mais um – de quem está abrindo exceção. Morre, se não passar ‘vômito’ doce de insetos no pão? (Tomei conhecimento de que agora há laboratórios testando abelhas para produzirem ‘botox’ natural, eis o resultado de levantar bandeira pró-apicultura light).
E o pior de tudo é carimbar de ‘vegano’ qualquer coisa que, em análise rápida, se mostra como ‘vegetariano estrito’ na verdade, ou no máximo. Não, não é ser cri-cri com a nomenclatura, nem fazer apologia da paranoia, e sim perceber que não basta ter zero de ingredientes animais para algo ser pró-animais. Há os testes (que nos deixam à mercê do atendimento robotizado dos SAC, e suas informações vagas). Há a indústria de onde procede o produto (que encharca suas botas com sangue e dor animal, mas lança comida-lixo ‘vegana’ para pegar incautos preguiçosos. Há o dinheiro em baldes que esta empresa dá a título de patrocínio (a rodeios, por exemplo, e também a atividades governamentais pela pesca, pelo ‘desenvolvimento’, pela pesquisa agropecuária). Há o local em que tal alimento foi comprado (que vende ‘opções veganas’ no mesmo balcão em que há foie gras e ‘pata negra’ e presunto e queijo – como acontece em locais que conheço).
Tentáculos que formam uma grande rede de conexões, interações e resultados, a partir do financiamento do vegano bem-intencionado, inocente, puro e besta, que leva seu dinheiro para alimentar a boca de um grande forno da indústria da escravidão e morte, travestida de porta de supermercado ou shopping. E não escapam ilesos, nisso, uma singela quitanda, uma feira orgânica, um entreposto do MST ou uma loja de produtos naturais. Pois não vendem somente ‘veganices’, e têm sua manivela girando, menos ou mais, no motor ou no ralo do sistema.
Há que se ler os rótulos, mas ainda mais – ler a realidade que cerca o eixo entre uma comida, um xampu, um sapato e a nossa vida de cidadão preocupado, guerrilheiro urbano pelos animais.

Comentários podem ser publicados diretamente em http://www.anda.jor.br/17/07/2012/a-vista-grossa-que-nao-ve-os-animais-la-ponta

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