São Paulo, 23/11/2017        
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Desafio populacional
JOÃO SALVADOR

À época do Império Romano, por estimativa, havia cerca de 50 milhões de habitantes, e, somente em 1850, atingiu um bilhão. Após cálculos e mais cálculos, análise de equações e gráficos, a aquecer os neurônios dos historiadores, chegou-se a conclusão que o planeta levou 5 milhões de anos para atingir a marca de 1 bilhão de habitantes, cem anos depois, 1,6 bilhão e 130 anos, mais tarde, 2 bilhões. Em apenas 60 anos (1950 - 2010), a soma chegou a 4 bilhões.
Agora, bocas humanas de degustações e de necessidades alimentares, somam-se 7 bilhões, 7 vezes mais em 160 anos, com perspectiva de chegar aos 9 bilhões em 2050 e de 10 bilhões em 2100, nem tanto pela taxa de nascimentos, mas pela longevidade alcançada diante dos progressos tecnológicos e sociais.
A grande pergunta: haverá condições alimentares e espaço físico para tanta gente? Malthus levantou essa questão em 1798 e Charles Darwin, inspirado no catastrofismo, formulou a teoria das adversidades, o nocaute dos mais fracos. Marx, no entanto, admitiu que o excesso de gente, é uma necessidade do capitalismo como força de trabalho, da competição de mão de obra, de elevação do lucro patronal.
Se o aumento populacional é sinônimo de pobreza, o Estado é que deve fazer uma reforma populacional para desdenhar a hipótese de que epidemias, miséria, fome e guerras étnicas, estejam dentre os agentes de controle biológicos. Se houver um melhor padrão de vida, menor será o número de integrantes familiares, que pode até acelerar o desenvolvimento econômico. Renda melhor, consumo maior.
No momento, a prosperidade de alguns países (7% da população mundial), ainda se baseia na exploração dos pobres, dos que não têm acesso ao regurgitamento, os arrotos da digestão básica de subsistência. Mas, se toda a população da Terra seguir os hábitos observados nos países desenvolvidos, o planeta pode não suportar o consumo de bens produzidos e não há sobressalente.
Para Joel E. Cohen, em 2009-2010, o mundo cultivou 2,3 bilhões de toneladas métricas de cereais, e, deste total, 46% foi para a boca humana, 34% para a animal e o restante para outros fins. O aumento do consumo de carne gera mais exploração de áreas agricultáveis, as que deviam ser utilizadas para produzir comida para gente e não para bovinos, caprinos, suínos e aves poedeiras ou de corte. Para produzir meio quilo de queijo ou meia dúzia de ovos, são gastos 3,5 quilos de grãos.
O Brasil produz 6,3 milhões toneladas de carne e 30 milhões de toneladas de soja. Na exportação de 20% desses produtos, não é contabilizada a água virtual na cadeia produtiva, porque é um valor agregado, que garante a competitividade brasileira. Será que alguém sabe que para produzir um quilo de carne são gastos cerca de 15 mil litros de água potável? Para um simples cafezinho, 140 litros? Nos próximos 20 anos sua necessidade será 40% maior para consumo humano.
O grande paradoxo é que existe alimento em abundância, enquanto um bilhão de pessoas - 14% da população atual – passa fome, pela falta de estrutura produtiva nos países emergentes e do comportamento dos consumidores, nos desenvolvidos, dois segmentos responsáveis pelas perdas de 1,3 bilhão de toneladas de alimentos por ano.
Zerar a fome no mundo, somente se houver redução de desigualdades na distribuição de alimentos, no combate ao desperdício na colheita, no transporte, armazenamento, no hábito de consumo e no controle efetivo de pragas e doenças agrícolas. Basta lembrar que em 20 anos, o Brasil aumentou sua produção de alimentos em 180%, e, juntamente com os Estados Unidos, deverá ser o celeiro mundial.
Mas somente uma educação de qualidade pode qualificar os novatos para que sintam que, numa família bem planejada, seus membros crescem, envelhecem com mais saúde, e sensibilidade e amor ao ambiente em que vivem.

JOÃO SALVADOR – biólogo da USP (Universidade de São Paulo)
salvador@cena.usp.br

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