São Paulo, 18/10/2017        
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ARTIGOS     
 
Novo tempo, apesar dos perigos
JOÃO SALVADOR
O organismo humano tem uma tendência compassada para absorver as mudanças, mas quando ocorrem em curto e concorrido espaço de tempo, o desbalanço energético vital predispõe-no a transtornos psicológicos, como depressão, ansiedade, angústia e pânico, síndromes dos tempos modernos.
O mundo atingiu a adolescência com a chegada da globalização, uma força progressista impulsionada pela revolução na informática na economia, nas comunicações, permitindo maior intercâmbio cultural.
O estreitamento entre os povos foi abrupto, onde se apurou o desenvolvimento disforme das populações, com os explícitos desarranjos operacionais, incompatíveis com um sistema exigente nos ajustes e correções em curtíssimo prazo, antes em conta-gotas.
Este reboliço causou grande turbulência emocional. As empresas nacionais tiveram que se enquadrar na ordem mundial, com a proposição de obter a qualquer custo a vantagem competitiva, a excelência na qualidade e inovação de produtos e serviços à base de muita imaginação e de criatividade.
Diante do bombardeio de informações, de questionamentos, de novidades e necessidade de adaptar-se ao dinamismo e da organização das idéias para cumprir metas, o recrutamento de profissionais ajustou-se na seleção dos mais bem preparados, os mais talentosos, de maior agilidade no uso das pontas dos dedos.
Os benefícios do crescimento foram repartidos indevidamente. De um lado um contingente incapaz de lidar com o mundo da escrita, e, de outro, a porção adulta, quase analfabeta, incapaz de integrar à vida econômica, jogada à informalidade trabalhista. Desencontros e desejos reprimidos pelos ajustes às normas exigidas pelo mercado foram se acumulando e as crises emocionais, também. Uso de drogas lícitas e ilícitas pelos jovens que não contemplam um futuro promissor aumentou e a violência e criminalidade urbana, também. Para os medianos, perdidos no meridiano das incertezas, o desconforto gerou práticas compulsivas, como as de comprar, comer, abrir geladeiras, de consumir. Para os mais velhos, que não conseguem administrar tantas mudanças, o medo do desconhecido é amenizado com os antidepressivos, ansiolíticos e psicoterapia.
No conceito de carreira, trabalho e estresse andam juntos, e os altos níveis de colesterol, das toxinas, em razão das dietas desbalanceadas e da falta de exercícios físicos, seguem um compasso. Não há tempo a perder. O diálogo familiar virou um desconfortante monólogo. O espírito competitivo, do egoísmo e da frieza, impede até a conversa franca entre os amigos de trabalho, pelos riscos de tocaias.
O ser humano é capaz de reagir a certas de agressões, porém a capacidade de adaptação está ligada à cultura. Os mais comprometidos com idéias e resultados têm maior dificuldade em manter o equilíbrio, pois a cobrança pessoal exagerada de dedicação ao trabalho compromete-lhes os fins de semanas e férias.
Mas tudo faz parte da adaptação humana. As transformações devem ser bem-vindas, apesar do custo emocional, espera-se mais solidariedade, menos individualismo.
Ser forte, persistente, é ser moderno, da maneira que se comportou Steve Jobs, que bateu de frente com um novo tempo. Outros, porém, não conseguem administrar certas situações e buscam ajuda, sem perceber que o ajudante também é vítima do estresse, da correria, de condições inapropriadas.
Enfim, de acordo com a letra de uma canção, neste novo tempo, apesar dos castigos, dos perigos, da força bruta que assusta, estamos crescidos, atentos e mais vivos, na luta para nos socorrer, para sobreviver.

João Salvador é biólogo da USP (Universidade de S. Paulo)
salvador@cena.usp.br
Publicado na Gazeta de Piracicaba: 27/10/11 (sexta -feira)
N. 1593
Ano VIII

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