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A idade média é agora: uma pequena nota sobre gatos
por Gerardo Furtado - outubro 4, 2011

Até meados do século XVIII praticamente não havia uma história natural ou, em termos mais modernos, um estudo da natureza em que seus elementos fossem considerados por si só, independente de alguma relação que pudessem ter com o ser humano. De forma geral, não apenas a existência da natureza como um todo era encarada por um ponto de vista extremamente antropocêntrico (os demais seres vivos existiam com o único propósito de servir ao ser humano), mas o próprio mundo da vida selvagem encontrava-se repleto de “imagens especulares para as relações humanas”, como nos diz Keith Thomas em seu “Man and natural world”. Enquanto as plantas eram imbuídas de assinaturas, entre os animais encontrávamos as mais variadas facetas dos comportamentos humanos. Cada animal simbolizava uma qualidade ou um defeito dos homens.
Esses estereótipos, é bem claro, baseavam-se muito mais na herança literária grega, romana e principalmente medieval que na observação dos comportamentos reais dos animais (que, para o homem medieval e moderno seiscentista e setecentista, pouco ou nada valia – vide Cremonini e Galileu). Para George Cheyne, “raro é o animal[1], pássaro, réptil ou inseto que, em cada clima particular, não instrui ou censura a espécie humana de alguma verdade necessária para sua felicidade, seja no corpo ou na mente”. Assim, a raposa é astuta, a cabra é lasciva, a formiga é previdente. Para Oliver Goldsmith, o porco é repulsivo, o tigre é cruel e a doninha é impiedosa. A coruja é o símbolo da sabedoria e da magia, enquanto o sapo simboliza a avareza (pois, apesar de poder se alimentar de areia – assim se pensava na idade média – e ter abundância dessa ao seu redor, não a come). Em cada uma das gravuras que fez para os sete pecados capitais, Brueghel representou um animal ao lado do personagem principal: o asno para a preguiça, o urso para a ira, o peru para a inveja, e assim por diante (infelizmente, na excelente coletânea portuguesa que tenho de Brueghel, falta-me a gravura da luxúria). O vaga-lume representava o espírito santo, assim como a lagarta representava a ressurreição.
Como é bem sabido, cada um de nós tem uma opinião sobre si mesmo um pouco mais bondosa e positiva que a realidade; do mesmo modo, tendemos a ver nossa época como mais esclarecida e intelectualmente iluminada que épocas passadas. Mas, como infelizmente é bastante comum, costumamos perpetuar preconceitos e equívocos sem pensarmos muito a respeito, apenas por fazerem parte de uma tradição, por terem se instalado, devido à repetição incessante, naquilo que chamamos de “sabedoria popular”, e pelo fato de o repetirmos constantemente – o que, é óbvio, não faz um engano tornar-se uma verdade. Dessa forma, para um grande número de fatos sobre o mundo natural, comportamos-nos como o homem medieval: repetimos uma tradição literária equivocada e simplesmente não observamos a realidade. Esse é o caso das características (defeitos e, em menor grau, virtudes) que atribuímos aos gatos.

Atualmente associado à má sorte, a aparição de um gato preto era, há poucos séculos, sinal de boa sorte... (Fonte: Science Photo Library)
Quase tudo (o “quase” é apenas um recurso retórico para evitar críticas mais severas) o que dizemos sobre os gatos, ou que o “senso comum” diz sobre os gatos, é herança de uma simbologia clássica ou medieval, sedimentada através das gerações. Da simbologia vitoriana aos quadrinhos que abundam na internet (onde um cão diz “se os homens me alimentam, os homens devem ser deuses”, e o gato diz “se os homens me alimentam, eu devo ser deus”), uma por uma, todas essas características são derrubadas se pararmos para observar o comportamento real dos gatos. Sem antropomorfismos, sem paixões, sem preconceitos… Uma etologia direta e científica, para honrarmos Lorenz, Tinbergen e tanta gente boa que surgiu nos últimos setenta anos (mais ou menos o tempo de vida que a etologia moderna tem).
Vejamos:
Os gatos são traiçoeiros. Bem, eu nunca emprestei 50 reais a nenhum dos meus gatos. Nem pedi que algum deles vigiasse pra ver se uma visita limpava o nariz no sofá enquanto eu ia ao banheiro. Nem pedi a nenhum deles que segurasse a escada enquanto eu fazia um reparo no telhado. Portanto, não sei o que essa “traição” significa. Deixando o sarcasmo de lado, o que as pessoas querem dizer é que não podem confiar num gato, em relação a se o gato irá atacá-las ou não. Isso, contudo, reflete uma ignorância das pessoas em relação ao gato, e não uma traição desse. Quem quer que tenha convivido com gatos e os observado suficientemente para entender algumas de suas sinalizações não tem dificuldades nesse campo. Em todas as circunstâncias em que eu vi um gato se incomodar com carinhos humanos, em absolutamente todas, ficou bastante claro para mim que o gato estava incomodado e eu poderia prever, com razoável grau de acerto, se o gato iria morder, arranhar ou simplesmente fugir do ser humano. Basta saber perceber os sinais, que são bastante claros. Então os gatos não gostam de carinho, dirão alguns. Bem, se o ser humano gosta de se vangloriar de ser a mais inteligente espécie da Terra, é hora de fazer jus à fama: em primeiro lugar, deve-se ter em vista que encarar um gato, olhando-o diretamente nos olhos (coisa comum em quem faz carinho), é sinal de agressividade. Além disso, gatos gostam de carinho no pescoço ou no dorso, e com uma pressão maior; jamais na barriga, nem por períodos prolongados na mesma região.
Os gatos não demonstram contentamento. Mais uma vez, trata-se de não saber observar o comportamento de uma espécie dada. Muita gente, por exemplo, quando vê um chimpanzé mostrando os dentes, acha que ele está rindo; acontece que chimpanzés riem de outra maneira, aquilo não é um riso. Em relação a cachorros, muita gente associa a imagem da boca aberta à alegria, quando o cão está apenas termorregulando. Do mesmo modo, balançar o rabo não significa necessariamente alegria canina: cães balançam o rabo antes de atacar (mas para um lado e numa frequência distinta do balançar por alegria). Voltando aos felinos, gatos cumprimentam quando esfregam a base da orelha contra alguma parte sua; gatos beijam, quando olham para você e em seguida fecham lentamente as pálpebras, girando a cabeça para um dos lados; e, por fim, gatos demonstram claramente contentamento: a forma mais óbvia é contraindo e estendendo alternadamente os dedos das patas anteriores. O ronronar também está associado ao contentamento, mas aqui deve-se ter uma certa cautela: gatos ronronam nas mais diversas situações, inclusive após uma lesão grave.
Gatos têm apego pelo lugar, e não pelo dono. Essa é uma “verdade popular” divulgada principalmente por aqueles que defendem a (falsa) dicotomia “você gosta de cão ou de gato?”. Logicamente, cães e gatos têm comportamentos distintos, apesar de compartilharem uma série de homologias comportamentais (uma vez que o ancestral comum dessas duas espécies não está tão distante assim no passado). Um gato se adapta a um novo ambiente em poucas horas, ao passo que pode demorar dias ou semanas para se adaptar a um novo ser humano ou a uma nova família de humanos (isso quando ele se adapta!). O fato de gatos serem tímidos e, ao contrário de cães, não gostarem de seguir seus donos (ou tutores, para usar um termo mais adequado) pela rua diz respeito ao receio que os gatos têm de novos ambientes, e não a uma hipotética falta de amor pelos donos. Havendo condições adequadas e, principalmente, inexistindo fatores que os ameacem ou os amedrontem, os gatos estarão quase sempre perto de seus tutores. O fato de eles não manterem a proximidade que cães mantêm, nem a frequência de proximidade que os cães mantêm, em nada diminui esse apego. Pelo contrário: quando se compreende que cães (evolutivamente, lobos pedomórficos) são altamente hierárquicos e que gatos, mesmo castrados, podem manter sob sua tutela um território de mais de um quilômetro quadrado, nos impressionamos mais ainda com o apego que gatos podem demonstrar pelo seu tutor.
Gatos trazem azar. Bem, se você é supersticioso… A idade média é mesmo a sua época!
De certa forma, a relação do tema desta curta nota com a biologia evolutiva não é tão distante como se poderia julgar. Juntamente com outras mudanças paradigmáticas dos séculos XIX e XX, a biologia evolutiva é uma ferramenta extremamente poderosa para modificar nossa concepção do mundo, e especificamente nossa concepção das espécies não humanas.

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