São Paulo, 25/06/2019        
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O que fazer com os peixes? ou ‘Cusparadas & assuntos-tabu’
por Marcio de Almeida Bueno
Foto: Marcio de Almeida Bueno

“Mantêm você dopado com religião, sexo e TV /
E você se acha tão inteligente, incomum e livre”
– John Lennon, em ‘Working Class Hero’
Quando se diz ‘Semana da Pátria’, são dias para homenagear e bater palmas à Pátria, quando é ‘Semana Santa’, significa uma seqüência de dias sagrados para os católicos, etc. Ou seja, a favor do assunto em questão. Mas quando o Governo Federal promoveu em setembro último a Semana do Peixe, era o contrário. Incentivo ao consumo de ‘pescado’, naquela conversa de vida saudável – termo que abrange de tudo, até idéias opostas.
Mas o ponto é que o peixe – citado aqui para fins de clareza e economia de espaço, já que o material oficial da campanha do Ministério da Pesca incluía camarão, siri e outros ‘frutos do mar’ – ganhou o carimbo de comidinha leve, saudável e não-carne. Já é piada corrente a frase ‘não como carne, só peixe’, ou os auto-intitulados vegetarianos, por só comerem… aquele animal que vocês já sabem. Peixe não tem sangue, peixe tem sangue frio, peixe não sente dor, peixe tem consciência coletiva, peixe é burro, Jesus comia peixe – todas essas frases-clone são xerocadas de boca em boca, babadas, e entraram na gaveta do senso-comum. Quem não der essa resposta na hora da prova, valendo nota, ganha zero da sociedade.
Na obrigação de sempre compartimentar o universo, a humanidade divide os animais entre úteis e nocivos, comestíveis ou não, alvos de amor ou tiro. Essa contabilidade vem desde a Bíblia. Em Levítico, 11, há o trecho “…de todos os animais que há nas águas, comereis os seguintes: todo o que tem barbatanas e escamas, nas águas, nos mares e nos rios, esses comereis. Mas todo o que não tem barbatanas, nem escamas, nos mares e nos rios, todo o réptil das águas, e todo o ser vivente que há nas águas, estes serão para vós abominação. Ser-vos-ão, pois, por abominação; da sua carne não comereis, e abominareis o seu cadáver… Esta é a lei dos animais, e das aves, e de toda criatura vivente que se move nas águas, e de toda criatura que se arrasta sobre a terra, para fazer diferença entre o imundo e o limpo; e entre animais que se podem comer e os animais que não se podem comer”.
O estalo do chicote que chegou até aqui, a fazer doer a bunda dos defensores dos direitos animais, é que temos que lidar com pessoas, ditas esclarecidas, que não comem carne, só peixe. Que jejuam na Sexta-feira Santa, comendo só peixe. Jesus comia peixe. Que tornaram-se vegetarianas por consciência, então agora só comem peixe. Que estão preocupadas com questões de ecologia anal, então optaram por comer só peixe. Que já refletiram sobre a – própria – saúde à mesa, então só trituram ‘pescado’ em seus dentes não-carnívoros.
E mesmo entre os que estão na causa animal, poucos pensam na morte dos peixes, a sério. Não a morte como estatística, como violência gráfica, mas o instante da morte. O momento de empacotar para sempre. Pois teoricamente, e bota boa-vontade minha nisso, os demais animais para consumo têm um fiapo de consideração legal em relação ao instante da morte – esta situação que está além de nossa vontade, infelizmente. Aviso aos chato/as que só conseguem chegar ao orgasmo quando apontam para alguém e gritam ‘Joga pedra na Geni! Ela é bem-estarista! Ela é boa de cuspir!’, que permaneço a salvo de suas cusparadas amargas.
Quando a WSPA – cusp! cusp! – fala de abate humanitário de peixes, é claro que nenhum abolicionista permance quieto na cadeira. Óbvio, e não precisamos discutir isso, combinado? Combinado. O ponto que levanto é que a maioria das pessoas, essa gente aí fora, mandando mensagem via celular e subserviente por opção – dá risada. Sonoras risadas. Peixes? Ahahahahhaha. E ainda cutuca o cidadão ao lado, para rir também.
Ou seja, os peixes estão entre as ondas e os rochedos, para usar uma metáfora apropriadamente clichê. Nem se pode discutir sua morte – inevitável, já que o mundo não será vegano a partir da semana que vem, infelizmente – nem se pode discutir sua morte. Percebem o paradoxo? Não se pode discutir a morte de peixes, e também não se pode discutir a morte de peixes. Não, eu não escrevi errado, é isso mesmo. Sutil, mas o tabu é esse.
O cidadão médio repassa aos conhecidos aquele clássico email do festival da matança de baleias na Dinamarca, acho que o assunto é ‘Fw: Vergonha Mundial!!! Repassem! Joguem pedra na Geni!!!’. Poucos fazem o hiperlink com a sangueira que foi genesis de sua refeição. Incluindo o tal peixinho grelhado, recomendado pelos cardiologistas.
Sim, eu sei que baleia não é peixe, nem morcego é inseto, como pensa o Calvin.
Lembrei também de uma recente ‘pescaria de protesto pró-Xingu’ – novamente a ecologia mostrando a língua para os direitos animais. A caça de peixes como algo lúdico, puro, natural, Robinson Crusoé, etc. Quero dizer que o especismo vai se enraizando em todas as invaginações do sistema, ao ponto de fazer crer às multidões que peixe ‘não é carne’. E nem mesmo tudo que está na água é comida – não por nojo, mas por peninha. Como quebrar essa muralha que parece crescer junto com o aumento populacional? Como resolver essa equação de saber que os peixes seguirão sendo mortos por asfixia para o consumo humano, mas sem perder o tempo abolicionista resolvendo os nós bem-estaristas?
Não tenho resposta pronta, ainda – até porque no meio dessa guerra da humanidade contra os animais, preciso estar atento a eventuais cusparadas.

Marcio de Almeida Bueno
www.VanguardaAbolicionista.com.br
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