São Paulo, 23/08/2017        
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Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
JOÃO SALVADOR
Incertezas

Através de uma complicada estimativa, calcula-se que mais de 80 bilhões dos considerados antropocêntricos, já passaram pela Terra. Após dois séculos de áureas invenções, cimentadas pelas organizações constituídas ao longo de centenas de anos, formaram-se conjuntos de sociedades com diferentes possibilidades e características de evolução.
Para os criacionistas, que creem na imutabilidade biológica do homem e no Gênese bíblico, fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Se todos fossem iguais, em bom palavreado, seríamos clones, mas nada nos faz semelhante a Ele, menos ainda no espírito, dado ao nosso poder de decisão, depois da bela sacanagem do casal épico, atormentado pela serpente. Não foi, entretanto, um péssimo negócio, senão todos viveriam no socialismo divino, sem criatividade, sem defeitos, sem ambição, eugênicos, embora felizes para sempre.
A diversidade étnica, pelas combinações genéticas distribuídas ao acaso, é imprescindível. Os genes são unidades fundamentais da hereditariedade, contêm as informações necessárias, igual a um código de barras, para reproduzir um ser vivo cada vez mais bem adaptado. Se assim não fosse, haveria um extermínio da espécie humana num simples surto patogênico.
Dentro da grande variedade de valores, determinada pela cultura, rezada pela natureza antropocêntrica, estabeleceram-se diferenças entre a fé e crença. Ambas, nos ouvidos menos aguçados, soam como semelhantes. Mas, se a fé remove montanhas pela fidelidade aos princípios básicos da harmonia, da afinidade com os portais divinos, a crença, discretamente, emite opinião sobre possibilidades.
Quase todas as doutrinas pregam a existência de uma pessoa perfeita que viveu entre nós, que ressuscitou ou se encarnou através de várias vidas, até se purificar, e, que, diante da ignorância da época, jamais poderia revelar os proféticos acontecimentos como a fome, guerras, terremotos, inundações e sufrágios de almas no purgatório. Mas após sua passagem, complicados textos e deturpadas versões da santa verdade, converteram-se em dogmas e doutrinas de alienação, de perseguições a mentes sensatas e futuristas, nos conventos e convenções, pela imposição da fé, das sarcásticas magias da mediocridade primitiva, sem direitos à misericórdia. Parte deste primitivismo ainda existe, cresce, e as organizações de má-fé, também. Engordam seus cofres, arrebanham os pobres de espíritos com a promessa da felicidade, da vida eterna.
E assim se fez o mundo. Perfeito para os mensageiros, mas com capítulos e versículos divinamente injustos por causa de interpretações dúbias, diante de um planeta de muita miséria, ambição, arrogância, perversidade, impunidade, no qual a lei dos mais fortes ou dos mais espertos prevalece.
Todos nascem puros, com bons sentimentos, mas, com o decorrer do tempo, por influência do meio, dos padrões distintos de educação e de cultura, soma de experiências, os fazem distintos em relação à índole, ao caráter, à personalidade. Um coração bondoso sofre com a existência de pessoas despidas de amor, de respeito, de sentimentos, e que se julgam criados à imagem e à semelhança de Deus.
Em que pese os esforços dos arautos da paz, certamente, não vamos obtê-la facilmente. Viveremos em bandos: bandos de criminosos, de políticos safados, de cientistas exploradores, de gente acomodada, de animais maltratados, de egoístas, mas também, existirão bandos de gente séria, honesta, batalhadora, que não serão subjugados por preceitos, mesmo à mira dos espertalhões. O mundo não será melhor, enquanto a metodologia de educação dos povos for elaborada por tecnicistas, que impede a discussão, o desenvolvimento do raciocínio para o bem coletivo, juntando-se aos sermões de inverdades, utópicos.
Ser adepto da linha filosófica de Tomé faz parte constituição humana e não sou uma exceção à regra em questionar se os conflitos étnicos, doenças, violência, desastres naturais, não fazem parte de um equilíbrio biológico da espécie, normatizado pelo Criador, como forma de aprendizado. Sei lá, ainda tenho muitas dúvidas.

Publicado na Gazeta de Piracicaba em 12/6/11
N. 1475
Ano VIII


João Salvador é biólogo da USP
(Universidade de São Paulo).
E-mail: salvador@cena.usp.br

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