São Paulo, 23/05/2017        
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Que rumo tomará o veganismo?

Este texto promove reflexões a respeito do veganismo de um ponto de vista pessoal, sobre o qual falo com franqueza. Sendo assim, que a leitora e o leitor reflitam e analisem, por si mesmos, o conhecimento aqui abordado.
Na humanidade sempre existiram pessoas que adotaram o vegetarianismo por várias razões, como, por exemplo, questões de saúde, questões morais, questões ambientais, questões religiosas e/ou espirituais, questões filosóficas etc., todas de grande importância para seus adeptos! Não obstante, um dos principais fundamentos que tem levado vários indivíduos praticarem e se aprofundarem no vegetarianismo tem sido de ordem ética.
Ao ser humano, é sabido que a qualidade de ser equânime para com os animais é sentida segundo a sua capacidade de experimentá-la emocionalmente, vivê-la sentimentalmente e compreendê-la racionalmente. A partir daí, ele a assimila como lhe aprouver.

Moral da minha mudança: há vários caminhos para abraçarmos causas justas, um deles, que não foi o único que abracei, é a educação vegana abolicionista. Após aprofundar-me nas pesquisas sobre direitos animais, acabei compreendendo que o veganismo exerce um boicote mais profundo às atividades que contribuem para a desnecessária exploração animal. Sendo assim, tornei-me vegano no dia 23 de janeiro de 2001. E conforme o meu testemunho numa entrevista publicada na Revista dos Vegetarianos (nº 24), "foi a conscientização sobre a indústria de produtos testados em animais que mais pesou em minha decisão", porém mais importante que se tornar vegano é permanecer vegano!
Estou consciente de que, mesmo não sendo capaz de ser 100% vegano na sociedade moderna, procuro não satisfazer os meus sentidos de percepção sensorial com coisas desnecessárias - que promovem o uso e o sofrimento de seres incapazes de falarem por si mesmos - os animais não-humanos. Sempre busquei um significado mais profícuo e lúcido às preocupações que tenho na vida, e como existem várias mudanças benevolentes que devemos fazer no dia-a-dia, temos que estar abertos a todas elas, sem exceção! Através da auto-análise, é possível enxergarmos a transformação ética de nossa existência muito além de qualquer "ismo" em particular!
Assim como concebo o racismo - termo que designa preconceito para com as outras "raças" - como um equívoco, de maneira análoga, concebo o deficiencismo[1] como outro equívoco. E de maneira semelhante, concebo o especismo - termo que designa preconceito para com outras espécies - como mais um equívoco tão irracional quanto os anteriores que citei. Por causa do racismo, os negros já foram vistos como seres humanos sem direitos! Com a "abolição da escravatura", esse discurso não vingou, apesar de muitos negros ainda sofrerem preconceito! Por causa do deficiencismo, as pessoas com "deficiências" já foram tratadas por várias pessoas com um enorme menosprezo devido às suas limitações biopsíquicas, e até hoje ainda se vê preconceito para com elas, e quem das pessoas que se dizem "normais" não têm tais limitações? Na verdade, todos nós temos deficiências, mas em diferentes graus, e não só os portadores de necessidades educativas especiais.

Por mais importantes ou simples que sejam, penso que quaisquer atitudes tomadas pelas pessoas apresentam motivos conscientes ou inconscientes de sua índole. Daí é importante ressaltar o seguinte raciocínio: "temos que analisar minuciosamente os nossos motivos para praticar o veganismo e decidir até que ponto estamos realmente dispostos a respeitar os direitos animais na prática, porque de acordo com as tendências que possam aparecer no nosso caminho ético, temos o direito de traçar os limites de nossa prática de uma maneira equilibrada, ou seja, sem se deixar levar pelo comodismo de quebrar o veganismo caprichosamente e sem se encantar pela sedução do fanatismo de querer representar os direitos animais através da agressividade".
A palavra "comodismo" designa atitude de quem atende, acima de tudo, à própria comodidade (isto representa egoísmo), e a palavra "fanatismo", no meu entender, designa a atitude de quem se inspira cegamente a qualquer coisa, ou seja, o fanático gera absolutismo desnecessário à sua postura.

Todas as coisas que são importantes para melhorar a vida alheia não devem ser supervalorizadas, mas também não devem ser menosprezadas, e é aí que está o equilíbrio prático de todas as coisas significativas para a benevolência alheia.

Como em qualquer situação desconcertante que se encontre, o praticante do veganismo acaba encontrando dificuldades de relacionamento que precisa saber resolver desdenhando tendências agressivas ao estar lidando com os outros!

Na opinião de algumas pessoas, parece difícil ser vegano diante da incompreensão de muitos onívoros - e até mesmo diante de "alguns tipos de vegetarianos". Entretanto, o vegano autêntico é original na prática em si, e não fica implicando com os outros que discordem do veganismo e nem sequer fica esquentando a cabeça com o que os outros irão achar de sua postura ética para com os animais não-humanos! O bom exemplo sempre é melhor que o preceito. Também cabe ao vegano ter mente aberta a bons pensamentos e a sentimentos fraternos, sendo assim, não ofenderá ninguém que discorde de sua postura. Implicância não é sinônimo de educação, ofender menos ainda! Sem querer generalizar, tenho que dizer isto entre aspas: "alguns" praticantes do vegetarianismo se consideram melhor que os onívoros por causa disso ou daquilo, e "alguns" veganos, crudívoros e frugívoros se consideram melhor que os ovo-lacto-vegetarianos, ovo-vegetarianos e lacto-vegetarianos pelo fato de se aprofundarem na prática do vegetarianismo - isto está muito longe da maturidade ética atitudinal! Praticar qualquer tipo de vegetarianismo não tem nada a ver com superioridade pessoal, mas mesmo assim tem gente que age dessa maneira dentro e fora do movimento pelos direitos animais! Sei que este assunto gera polêmicas, divide os praticantes e levanta muitas discussões; sobretudo, é irracional considerar que apenas a adoção do vegetarianismo/veganismo seja a coisa mais importante do mundo, embora isto seja uma das diversas questões para aprimorá-lo, e uma das características significativas para conquistar a benevolência alheia. No entanto, isso não significa que os ovo-lacto-vegetarianos, ovo-vegetarianos e lacto-vegetarianos devam se aproveitar de algumas explicações que estou expondo para criar um estacionamento comodista e permanente nessas classificações vegetarianas, pois o veganismo realmente é o mínimo que podemos fazer para respeitar os direitos animais na prática!

É verdade que todos os tipos de vegetarianos estão fazendo a sua parte, pois cada um está no seu próprio processo de transformação ética, mas o comodismo é tão prejudicial quanto o fanatismo. Às vezes, ocorrem ofensas, intrigas e picuinhas entre os onívoros e os vegetarianos, e também entre os próprios vegetarianos, já que há praticantes distintos, e sei que essa situação pode, dependendo do contexto, ficar difícil de se controlar. Todavia, ninguém pode se considerar melhor do que o outro: onde está a sensatez? A vaidade é uma praga na mente daqueles que se acham os donos da verdade, os quais se exibem como se fossem heróis. É claro que alguns onívoros implicam com os vegetarianos e também se acham superiores aos mesmos, mas o contrário também acontece - ambos devem controlar os seus impulsos: isto é uma questão de bom senso!
A superação de qualquer tipo de agressividade exige soluções muito mais complexas do que a prática do vegetarianismo/veganismo. Este assunto tem a ver com o vandalismo e a rebeldia. A falta de amadurecimento é a razão pela qual possibilita explicar o fato de algumas atitudes extremistas terem sido adotadas por algumas pessoas que jogam bombas em restaurantes que vendem os cadáveres dos não-humanos, que depredam ou incendeiam lojas do McDonald's pondo em risco a vida de várias pessoas, que espancam cientistas que fazem vivissecção com os indefesos animais só porque defendem a ideia de que todos devem parar de explorar os bichos. No momento em que se fazem ataques como esses, tais pessoas se colocam no mesmo nível que os especistas, ou até mesmo pior que eles! Ser a favor da educação vegana abolicionista é muito diferente do que ser a favor da vingança. Para qualquer praticante sincero do veganismo, é evidente que o mesmo não se pode conciliar com a vingança. Caso contrário, nenhuma melhoria será possível no desenvolvimento da consciência ética. Creio que essas palavras expressam uma verdade irrefutável para qualquer pessoa sensata, cujo juízo é fundamentado na lucidez, apesar de parecer demagogia para alguns, principalmente para os fanáticos!

A inutilidade da "barbárie intencional" - como forma para tentar suprimir a violência desnecessária imposta aos animais não-humanos - é tão evidente que só mesmo uma pessoa de mente fechada para não reconhecê-la como tal.

Devemos, sim, nos opor à vingança pra lá de violenta que algumas pessoas adotaram como forma de impedir o sofrimento dos animais. É mais justo boicotar, fazer protestos pacíficos através de eventos educativos, fazer distribuição de panfletos, promover diálogos e palestras, estimular encontros fraternos com direito a lanches, almoços, jantares, utilizar ótimos argumentos a favor do veganismo à divulgação pública, encorajar a prática do boicote a qualquer forma de exploração animal, fazer denúncias - as mesmas chocam as pessoas à realidade ou praticar qualquer outro meio positivo de promover o veganismo do que utilizar meios vingativos que só tendem a prejudicar mais ainda as coisas. O que os leigos no assunto irão achar dos maus exemplos de alguns ativistas que comprometem o veganismo? Acaso existirão pessoas que se tornarão veganas com este tipo de ativismo? Cara leitora, caro leitor, vocês estão entendendo a situação desconcertante? Alguém sem conhecimento de causa e efeito das atividades violentas se engana facilmente ao pensar que os meios vingativos podem servir à benevolência dos animais como uma maneira de modificar as condições miseráveis que são impostas aos mesmos.

Atividades antiéticas combatem-se de maneiras coerentes e existem diversas outras maneiras, qualquer atividade pacífica é bem vinda, portanto, é importante divulgar os direitos animais como um movimento de justiça social fundamentado na educação vegana abolicionista!

Por não querer obedecer a ordens injustas, também podemos praticar a desobediência civil, como fizeram Thoreau e Gandhi, indo de encontro a alguma autoridade que abusa de seu poder para explorar os outros, mas isso é feito sem nenhum tipo de violência. Algumas pessoas também optam pela objeção de consciência, que é algo amparado por Lei, como é o caso de alguns estudantes que se recusam a participar de testes laboratoriais que envolvam animais.

É sabido que a vã tentativa de algumas pessoas tentarem denegrir o veganismo, com suas tagarelices recheadas de palavras floridas, é uma insensatez descabida - oriunda de uma indiferença absurda, da qual, infelizmente, nossos negadores participam. Muitos vêm discordando do veganismo com argumentos que favoreçam sua própria inexperiência do assunto, mas nenhum desses argumentos resiste a uma avaliação correta, realizada com minúcia e clareza. A quem o presente texto não importa, basta constatar com mais objetividade a essência deste artigo. E para isso ocorrer, talvez seja preciso a coragem de ser fidedigno numa compreensão verdadeira e inescapável daqueles que realmente se preocupam com a benevolência alheia estendida não só aos animais humanos, mas também aos não-humanos!

Na Internet, há alguns textos negativamente tendenciosos e intensamente subjetivos, tentando refutar os ativistas dos direitos animais afirmando que não dá para levar a sério o movimento de defesa dos direitos animais como uma oposição legítima com a qual é preciso discutir e dialogar por causa das falhas de alguns fanáticos. É verdade que "alguns desses ativistas" mostram-se negligentes com a educação e o equilíbrio que deveriam ter em suas respectivas posturas, mas isto não quer dizer que o veganismo seja mais um "ismo" praticado por fanáticos. As críticas dos nossos negadores deveriam ser feitas somente às pessoas que queimam o filme dos direitos animais, e não ao movimento como um todo, pois a generalização desses julgamentos serve para afastar as pessoas do veganismo. É lastimável que os nossos detratores se aproveitem dos erros de algumas pessoas para julgar os ativistas como se todos fossem farinha do mesmo saco e, ao mesmo tempo, reivindicarem a superioridade do humano sobre o não-humano para legitimar a exploração deste último. Nós, humanos, não estamos com essa bola toda: chega de tanto especismo! Assim como nós, os não-humanos são seres suscetíveis à dor e a outros sofrimentos intoleráveis - por motivos estabelecidos pela equivocada premissa de que os animais devem ser usados e explorados pelo ser humano. Neste sentido, a dita superioridade do humano sobre as outras espécies é baseada numa consciência mesquinha: um erro que só serve para maltratar os animais não-humanos e satisfazer os sentidos dos especistas. É de suma importância promovermos respeito para com os humanos e não-humanos através da equanimidade, e não como nossos negadores querem salientar, que os animais devam ser explorados para satisfazer os desejos de comer os seus restos cadavéricos, que suas peles sirvam para fazer vestimentas à satisfação de inúmeras pessoas vaidosas apegadas ao corpo físico, que seus corpos sirvam à vivissecção em testes laboratoriais supostamente científicos.

Os vegetarianos e os onívoros que optarem por uma "mente aberta" podem refletir melhor sobre o assunto plantando mais esclarecimentos na consciência que possibilite um manifesto de lucidez às questões que o veganismo propõe à ação.

Embora a atenção no que se refere às coisas que os veganos boicotam seja para a satisfação dos sentidos dos onívoros e até de alguns tipos de vegetarianos, levo em consideração que elas devam ter uma ligação atualizada e coerente com a benevolência alheia estendida aos animais não-humanos, para não incorrermos na flagrante e desnecessária exploração dos mesmos!

A averiguação intelectual do que escrevi é uma questão de critérios - muitos leem e interpretam de diferentes maneiras, segundo suas próprias reflexões. Para finalizar este texto, quero compartilhar com as leitoras e os leitores a seguinte reflexão que é oriunda da indagação do título deste artigo: que rumo tomará o veganismo? Será aquilo que dele os praticantes fizerem!

Nota:
[1] Este termo identifica o preconceito para com os portadores de necessidades educativas especiais, e foi usado pela primeira vez em um trabalho acadêmico apresentado no Instituto A Vez do Mestre, em 2008. Trata-se de uma monografia de Pós-graduação em Psicomotricidade.

Por Charles de Freitas Lima (ex-monge da ISKCON, professor de Educação Física e pós-graduado em Psicomotricidade).
E-mail: veganocharles@yahoo.com.br

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