São Paulo, 18/12/2017        
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Florais de Bach para animais
 
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A chave da vida

Para os criacionistas que creem na imutabilidade biológica do homem e no Gênese bíblico de que ele foi criado à imagem e semelhança de Deus, somos todos iguais, portanto, clones divinos. Já, os evolucionistas, defendem que diante de tantas combinações genéticas de genes recessivos, distribuídas ao acaso, ninguém é igual e nem deve sê-lo.
Eva foi criada a partir da costela de Adão, mas é uma criatura distinta anatomicamente, de genoma diferente, o que leva a discutir a clonagem divina. Deve ter ocorrido um acidente de percurso no processo evolutivo, como estratégia do Criador no trajeto disforme da reprodução, envolvendo a transgenia ou mutação induzida, capaz de transferir genes para comporem os maravilhosos dotes femininos, invejados, aliás, por muitos “machos”, descontentes com sua sexualidade.
Dizem que Deus é espírito (Jo 4:24), e, desta maneira, é provável que tal semelhança e imagem, espargidas por tanto tempo nos manuais bíblicos, signifiquem apenas o pensamento de uma figura íntegra, de um pregador da justiça e que foge, em boa parte, às leis formalizadas pelas suas supostas crias.
A clonagem, para quem não quer se envolver em políticas doutrinárias, dogmáticas e filosóficas, teve início em 1901, quando um cientista dividiu um embrião de salamandra em duas partes, reproduzindo dois indivíduos idênticos, de genes iguais. Os genes são unidades fundamentais da hereditariedade, que contêm as informações necessárias para reproduzir um ser vivo, comandando todas as etapas do processo de formação. O DNA, que se localiza dentro do núcleo das células, possui uma coletânea de genes e cada um funciona como se fosse um código de barras, informando as características do indivíduo a ser reproduzido, como a cor dos olhos, dos cabelos e da pele e daí por diante. Se os clones têm genes iguais, devem apresentar as mesmas características físicas, então são cópias idênticas, de mesmo genoma.
Nos vegetais, aqueles que são gerados a partir de estacas, folhas, enxertia e partenocarpia, são clones. Nos organismos macro e microscópicos, a partenogênese, esporulações e brotamentos, também os são, pois não há união de gametas no processo.
Nos animais superiores, incluindo o homem, a formação de clones é baseada na reprodução sexuada, na qual há a participação do óvulo e do espermatozóide para formar uma nova célula, que pode se dividir em duas, em quatro e segue. Quando, porém, se dois ou mais indivíduos forem desenvolvidos a partir da mesma célula, ou zigoto, são considerados gêmeos idênticos, de mesmo genoma.
O sonho da imortalidade, da reconstituição de um ente querido à beira da morte, através da clonagem reprodutiva, é impossível, já que a réplica física perfeita não é sinônima de personalidade, inteligência e de índole idênticas, haja vista o que ocorre com os gêmeos univitelinos. Clonagem feita em animais vem demonstrando que os clones possuem um envelhecimento precoce, um sistema imunológico vulnerável e com certas aberrações cromossômicas. Desta maneira, além das implicações éticas na criação de cópias idênticas de indivíduos, as técnicas não são suficientemente seguras, trazendo riscos irreparáveis aos clonados.
Um dos mais promissores campos da investigação médica, em pesquisa avançada, é a clonagem terapêutica, cujo propósito é a produção de células-tronco, onde as primeiras células de embriões têm a capacidade de converter-se em qualquer tipo de tecido, de nervoso a ósseo, com o propósito de reparar erros genéticos, curar várias doenças degenerativas e reconstruir órgãos lesados. No futuro, o corpo humano terá a reposição de seus órgãos e tecidos desgastados e será mais longevo.

JOÃO O. SALVADOR é biólogo do Cena
(Centro de Energia Nuclear na Agricultura) - USP
salvador@cena.usp.br

Publicado na Gazeta de Piracicaba em 4 de março de 2011
Ano VIII – N.1389

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