São Paulo, 23/08/2017        
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Consciência metálica

Já existem máquinas com equipamentos capazes de notificar, informar e até mesmo de agir em resposta à falha humana. Filmes exibem personagens robotizados que causam a sensação de que, no futuro, a imaginável capacidade de auto-replicação de conhecimentos da inteligência artificial, numa reação em cadeia, colocará o homem como refém de seus próprios atos.
A singularidade tecnológica, termo emprestado da física, significa dizer que no futuro a humanidade atravessará sucessivos estágios de avanço tecnológico cada vez mais curtos, quando certos fenômenos se encaixarão em situações extremas, sobrepondo à famosa equação da relatividade. A curva da evolução, no caso, ficará tão vertical que ultrapassará o limite do próprio gráfico. As informações enviadas por um agente frio, sem alma, de poder incalculável, de tamanho minúsculo, viajarão às escondidas, em raciocínio lógico, à velocidade da luz.
Em 1980, um computador tinha 4,77 megahertez, um gigante em tamanho e impressionante para a época. Hoje, os processadores mais atualizados têm ao redor de 3,5 gigahertez, com muito mais componentes, de forma compactada e nucleados para dar maior velocidade e maior praticidade no manuseio. Dentro dos princípios da física quântica, das supercordas, grandes viagens interplanetárias devem ocorrer, com imagináveis interações cósmicas. Chips nanotécnicos vasculharão o corpo humano em busca da comunicação entre os seus órgãos com o código genético e suas ligações com as doenças.
Mas o homem não será tolo de criar uma inteligência artificial que ultrapasse suas dimensões intelectuais e criativas, enquanto a engenharia genética for capaz de realizar alterações no patrimônio genético para aumentar a complexidade do DNA, dando superpoderes aos sistemas biológicos. Verdade ou não, há inclusive, especulações de que novas gerações de crianças, os índigos, justamente por mudanças na genética estrutural, dirigidas pelos passos naturais da evolução, vêm representando uma resposta de transformação de consciência sobre os reais valores da espécie humana e sua interação harmoniosa com seu ambiente.
Muitas deduções, no entanto, são feitas pelo momento fantástico que se vive, com a explosão de tecnologia, quando as máquinas articuladas, ou estáticas, trabalham com alta eficiência, sob o comando humano, através de programas estritamente logísticos, desenvolvidos pela aglomeração de células nervosas, que nem mesmo o mais intelectual dos intelectuais tem a noção exata da trajetória determinada por bilhões de sinapses. Embora muitos desses comandos representem o grande hiato de separações em classes, pondo em risco a extinção de certas camadas sociais, há outros consideráveis, relevantes e fundamentais contra os estrategistas armados e desalmados, obcecados pela eugenia, da elitização humana.
O homem precisa aprender, porém, que se ele deixar tudo a cargo da máquina, pela confiança em sua genialidade, cairá em alto grau de dependência, correrá o risco de ser reduzido às condições de um animal doméstico. Se ela se igualar à capacidade de um rato, logo chegará à de um macaco e, rapidamente, à do homem, daí sim, ele perderá toda a sua razão, a emoção, o seu ponto mais forte que é o amor pela vida. Não saberá nem mesmo desligar sua cria agressiva, podendo findar-se sob o olhar gélido de sua obra-prima.
Resta esperar que o profético perigo da inteligência metálica não se concretize no sentido de dominar o mundo à revelia do homem, mas, para isso, a consciência humana tem que se desenvolver com base na escolha do melhor tempero para a mistura de carne com chips, o que dê mais saúde, trabalho, segurança, conforto e bem-estar para todos. Evitar, acima de tudo, que um maluco das arábias use ultra-sensores, na tentativa de pôr tudo a perder pelo simples apertar de um botão.

JOÃO O. SALVADOR é biólogo do Cena
(Centro de Energia Nuclear na Agricultura) – USP
salvador@cena.usp.br

Publicado na Gazeta de Piracicaba em 27/02/20011
Ano VIII – Ed.1385

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