São Paulo, 23/08/2017        
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Deslizes administrativos

Deslizamentos, enchentes, vendavais, tempestades e, recentemente, até ciclones extratropicais, ocorrem no Brasil, mas culpar a natureza pelos desastres é um deslize administrativo, criminoso pelos que oferecem barracos em áreas de risco, que permitem a especulação imobiliária em troca de votos.
As chuvas torrenciais, mais uma vez, não explicam sozinhas o rastro de destruição causada pelas cheias. As tragédias tornaram-se costumeiras, recorrentes, nada a ver com aquecimento global, mas com o modelo de gestão política dos solos de áreas urbanas. Se o controle de território é uma competência do município, que depende de seus instrumentos de qualidade, da boa estrutura de equipe, fiscalizar não significa eficiência e resolução quando o modelo permite o radicalismo de entidades, com opiniões divergentes, de diagnósticos contraditórios e fundamentalistas.
Por essa razão, não me causou nenhuma estranheza as imagens mostradas do desmanche de residências pobres e desabamento de condomínios de luxo. Esses imóveis foram construídos com a licença municipal, talvez com o aval de órgãos ambientais, sem um diagnóstico preciso sobre que tipo de impacto ambiental as ocupações de áreas verdes de morro causam ao meio ambiente e o impacto que o ambiente pode causar às moradias.
Quando não se respeita a vulnerabilidade de espaço, quebra-se o conceito de que somente os bairros populares e irregulares estão sob riscos, embora os piores lugares, por serem mais baratos, sempre sejam destinados aos menos favorecidos, em razão dos baixos salários que não cobrem os custos de uma moradia digna, adequada, com qualidade e segurança.
A política de habitação em construção de casas, em obras de saneamento, em planejamento e gestão do solo, parece não fazer parte da agenda de política urbana no Brasil. Joga-se com a sorte, sem considerar que o gasto de emergência supera o da prevenção. Na verdade, verbas são liberadas apenas para obras de repercussão, de curto prazo, que rendam votos.
Em encostas mais acentuadas o solo é raso e, quando muito encharcado, seu peso aumenta, a água neutraliza seus parâmetros de resistência, ele se movimenta e desliza. Este movimento é precedido pelos sinais de trincas no solo, formação de pequenos degraus, rachaduras nas casas e um perceptível desaprumo de muros e postes. São sinais que se moradores e autoridades ficassem atentos, muitas mortes seriam evitadas.
Quanto aos alagamentos que ocorrem nas áreas centrais da metrópole paulistana, que trazem transtornos enormes no trânsito, prejuízos incalculáveis ao comércio e indústrias, que traumatizam seus habitantes, relacionam com retificação dos cursos normais dos rios e córregos, canalizados para a construção de avenidas de trânsito rápido em seu entorno. As áreas de várzeas, por sua vez, foram ocupadas por moradias e os rios ficaram tamponados, sem áreas para o transbordamento, incapazes de acomodar tanta água que desce das encostas. Por outro lado, a população deseducada é responsável pelo acúmulo de lixo nos bueiros, nos rios e seus afluentes.
Faltam bosques na cidade, parque nas margens dos rios. Cerca de 48% da população paulistana são carentes de vegetação. Setenta e cinco por cento das áreas verdes ficam no entorno da cidade, distante do aglomerado urbano. Os 25% restantes, estão espalhados na cidade e ocupam mais os bosques e parques de bairros nobres. Em áreas menos arborizadas a temperatura é maior, com formação de corredores de vapor que se transformam em nuvens carregadas, logo despejadas.
Reconheço, sim, que o problema é crônico pela grande impermeabilização em consequência de tanto asfalto, das calçadas e quintais ladrilhados. O inchaço urbano vem empurrando as comunidades carentes para a periferia, o que dificulta a criação de corrigir e estabelecer um plano habitacional bem estruturado em curto prazo, mas existem formas de parcerias, com técnicos experientes, gabaritados de universidades, que podem colaborar num profundo estudo sobre a criação de mapas geotérmicos e hidrológicos, das áreas vulneráveis as chuvas fortes e do uso adequado de acupação do solo.

JOÃO O. SALVADOR é biólogo do Cena
(Centro de Energia Nuclear na Agricultura) –
USP (Universidade de S.Paulo)
salvador@cena.usp.br

Publicado na Gazeta de Piracicaba em: 13/02/2011
Ano VIII, n.1372

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