São Paulo, 23/09/2019        
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Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
Houve uma época em que o homem vivia entre os outros animais (os outros sim, porque nós não somos vegetais nem minerais, certo?). Não, ele não estava no Paraíso como descrito na Bíblia. Estava aqui mesmo, pé no chão da Terra.
Milênios se passaram numa convivência não muito diferente da que temos com nossas famílias hoje, ora boa, ora um inferno. Aos poucos o homem foi se socializando, montando suas pequenas comunidades de humanos mas, ainda assim, os outros animais viviam com ele, disputando abrigo, restos, servindo como força de trabalho ou de alimento.
Porém, quanto maiores ficavam esses então pequenos aglomerados de animais humanos e não-humanos, maiores se tornavam os problemas de convivência. Demorou um tanto até que os humanos aprendessem a fazer suas necessidades básicas longe de onde dormiam e comiam mas, quando aprenderam, não mais se conformaram com os outros animais que insistiam em defecar por perto. Foi aí, nesse momento perdido na história da humanidade, que humanos começaram a se separar dos animais.
Com uma característica que só ele tem, o homem culpou o animal (é sempre o outro que tem culpa) pelo fedor, pelas doenças e por uma série de outras coisas. Assim, foi delimitando cada vez mais as áreas onde só ele teria acesso, deixando os animais - os outros - em locais ou restritos ou longe dele, deixando-os se aproximarem só quando lhe conviesse.
Foi um longo processo até os dias de hoje mas, inacreditavelmente, isso ficou indelevelmente marcado em nossa memória genética. Tanto que ainda temos uma sociedade separatista, cheia de limites para os animais, mesmo aqueles que tomam banhos com xampus importados, comem ração de primeiríssima e recebem mais vacinas por ano que a grande maioria das crianças desse país. Pensando como nosso antepassado nas cavernas, ainda não conseguimos restabelecer o vínculo original com nossos companheiros de existência. Não somos, ainda, inteligentes o suficiente para compreendê-los, aceitar as diferenças e manter uma convivência harmoniosa.
Algumas grandes cidades do planeta já aceitam melhor os pets em restaurantes, hotéis, bares e locais públicos. Mas isso ainda é muito restrito. O pavor de "pegar uma doença" originado em tempos mezozóicos ainda assombra grande parte da população humana, mesmo aquela dita "culta".
E não é só isso: o preconceito ainda é muito grande. Certa vez minha esposa foi convidada a se retirar do elevador - ela estava carregando nossa schnauzer no colo - porque um outro morador se recusava a dividi-lo com um animal. Quando cheguei em casa não consegui fazê-lo sair no hall para termos uma conversinha sobre o assunto...
É irritante ver como a grande maioria de bares e restaurantes proíbem cães, mas permitem fumantes, gritarias, conversas em alto e bom som ao celular e crianças mal-educadas pulando e correndo entre as cadeiras ou atirando azeitonas nos outros comensais. Aliás, por falar nisso, tenho certeza de que você jamais verá um cão fazendo pirraça no shopping, se jogando no chão e berrando porque quer um brinquedo novo...
Agora a moda entre os empreendimentos imobiliários é construir edifícios com grandes áreas de lazer e praças. Nos anúncios, quase sempre há uma criança e um cão. Mas não se engane: a criança poderá circular livremente pelos jardins, inclusive quebrar algumas coisas e detonar os canteiros, mas seu cão terá de ser levado no colo do elevador à rua - isso se não o obrigarem a usar as escadas.
Recentemente fiquei numa pousada em Ilhabela. Confirmei por telefone, mais de uma vez, se poderia levar minhas duas "meninas" - Mila e Biba - e fui informado de que não haveria problema algum. Até sugeriram um apartamento no térreo, com quintalzinho onde elas poderiam ficar mais à vontade. Chegando lá a coisa não era bem assim. O folheto de regras da pousada deixava claro: animal de qualquer porte não poderia transitar nas áreas comuns e, para ir do quarto à rua, somente no colo. Eu deveria pedir o dinheiro de volta, mas não quis estragar de vez o feriado.
Sendo moradoras de apartamento a vida toda, estranharam o tal quintalzinho e nem lá faziam suas necessidades. Esperavam pacientemente que eu as levasse à rua para aliviar a bexiga. E os intestinos.
Sim, claro, nem todos os cães são assim, eu sei.
Constrangidos e receosos, deixávamos as duas no quarto para irmos almoçar e descobrimos tarde que o Bacalhau, ótimo restaurante à beira da praia do Curral, permite a presença de cães. E, surpresa: o Atlântico, bar de esquina na Vila, não só as acolheu como o dono mandou que servissem água pra elas.
Nem tudo está perdido para a humanidade.

Luís Henrique é publicitário
henriq@uol.com.br

Publicação autorizada, desde que os CRÉDITOS SEJAM CONSERVADOS E
FONTE CITADA: site “Florais e Cia” – www.floraisecia.com.br


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