São Paulo, 26/09/2017        
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Argos e Sansão

Aproveitando o ensejo da semana “animal”, cujo objetivo é conscientizar donos de animais a não serem “animais” com seus bichos e, principalmente, na esteira da matéria publicada, na semana passada, acerca do lamentável caso do cachorro pitbull, cujo dono (digno de uma Dalila) o nomeou de “Sansão”, mas que foi encontrado numa condição que os veterinários classificaram de cruz da morte, resolvi invocar um “caso” imemorial da relação dono e cão registrado numa passagem de um dos mais belos livros da história da humanidade: a Odisséia de Homero que, ao lado da Ilíada, do mesmo autor, constituíram-se nos dois pilares de sustentação de muito daquilo que viemos a conhecer como cultura ocidental. A Odisséia talvez seja o livro mais influente no mundo, atrás apenas da Bíblia. Vale registrar que ela faz parte de uma antiga tradição oral e faz parte do período épico da literatura grega, ou seja, estamos falando de uma obra de cerca de 30 séculos atrás, mais ou menos.
Antes de tudo, preciso registrar a minha posição: gosto de animais, tenho um cachorro, mas sou sóbrio: há limites que não devem ser transpostos, ou seja, animal é animal e ser humano é ser humano; sou contra sentimentalidades exacerbadas, do tipo ficar conversando com os animais num tom quase sombrio ou macabro, ou alçá-los à condição de membros familiares; não é essa a minha praia. Voltemos, então, à vaca fria.
A Odisséia registra dois momentos da vida de Odisseu: o primeiro é a sua viagem de retorno a Ítaca, sua terra natal, após o fim da guerra de Tróia, retorno cheio de peripécias, que retardam em muitos anos o seu retorno em relação aos demais heróis gregos (por isso seus parentes e servos pensam que ele pereceu no mar); o segundo é o reencontro com seu palácio, sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco, que fora deixado ainda bebê, mas que já se encontra moço. Muitos espertalhões agregaram-se ao palácio do herói, pois julgaram-no morto, na tentativa de desposar Penélope e herdar toda a sua propriedade. Os pretendentes pilhavam o seu palácio e seus bens enquanto Penélope chorava a perda do marido. Como ela não queria ceder aos pulhas, planejou um modo de enganá-los: iria tecer um manto e somente enquanto o tecido ficasse pronto ela iria escolher com quem se casaria. Mas ela desfazia o tecido para recomeçá-lo, de modo que conseguia ganhar tempo.
Quando Odisseu desembarcou em Ítaca, ele recebera a visita de Palas Atena, a deusa filha de Zeus, que lhe explicou a situação e planejou a vingança do herói. Ela o transfigurou para que ninguém o reconhecesse: mudou seu físico e suas roupas de modo a parecer-se um mendigo, um estrangeiro pedinte. Na hora oportuna ela iria revelá-lo em toda sua plenitude e a carnificina seria iniciada. De fato, ninguém o reconheceu nesse estado, exceto um ser. Odisseu estava indo para seu palácio na companhia de Eumeu, seu porqueiro, que lamentava a morte do senhor, mal sabendo que estava diante do próprio. Quando se aproximaram, um cão, que se encontrava na soleira da porta, levantou a cabeça e as orelhas. Era Argos, o cão que Odisseu havia criado, mas que não pôde usufruir da presença do dono, pois este partira para a guerra quando ainda era filhote. Crescera um cão ágil, caçador de corças céleres, cabras selvagens e lebres velozes. Nenhum animal conseguia escapar de sua perseguição. Mas com a ausência do dono e o desleixo dos criados, Argos foi largado junto a um amontoado de estrume e encontrava-se cheio de carrapatos. O poeta registra dessa maneira o acontecimento: “Ao perceber Odisseu, que passava, entretanto, ao pé dele, a cauda agita de leve, abaixando também as orelhas, sem que possível fosse avançar ao encontro do dono. Este uma lágrima logo enxugou, disfarçando o olhar, para que Eumeu não o notasse”.
Não me lembro de Odisseu ter derramado uma lágrima sequer antes do encontro com seu Argos. Muitos de seus sofrimentos até então foram dignos das mais copiosas lágrimas. Mas o reencontro com seu cão causou-lhe profunda tristeza. Era a imagem da dilapidação do patrimônio do herói: assim como os carrapatos infestavam-lhe o corpo, seu palácio estava repleto de parasitas. Ambos, Argos e Odisseu, foram renegados pelos servos. Contudo, nesse momento, eles se verificaram mutuamente, cão e dono, e a cumplicidade, embora suspensa por 20 anos, veio à tona.
A passagem em questão, para quem quiser verificar, está no canto XVII, a partir do verso 290 e se estende até o verso 326, que termina assim: “Pelo destino da Morte sinistra foi Argos colhido, quando revira Odisseu, decorridos vinte anos de ausência”.



Evandro Luis Salvador é doutorando em Letras Clássicas/Unicamp.

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