São Paulo, 23/09/2019        
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Florais de Bach para animais
 
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É inadmissível que em tempos de modernidade, de tecnologia, de tantos conhecimentos, trafeguem pelas ruas das grandes cidades, carroças puxadas por cavalos e muares, conduzidos por seres irresponsáveis, imprudentes, cruéis e impiedosos, em trânsito intenso, obrigando-os a se compatibilizarem com o movimento. Na periferia ainda é pior.
Há séculos os animais de carga são submetidos à exploração desumana. Porém, atualmente, esta situação vem tomando proporções assustadoras. Mesmo com a proclamação da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, pela Unesco, há 27 anos, da qual o Brasil faz parte, a grande certeza que fica para os protetores é que nada mudou e que os eqüinos e asininos continuam desamparados pelas leis, vítimas da impunidade e do descaso.
A alegação é a mesma de sempre, a de que se trata de um meio de sobrevivência dos mais pobres, dos injustiçados pela desigualdade social. Só que ao serem questionados sobre essa brutalidade, grande parte desses miseráveis justifica que as chibatadas são feitas quando o animal é preguiçoso, desobediente e recusa-se a realizar o serviço.
Para quem vê este tipo de conduta é triste, lamentável ao perceber que certos animais nem respondem mais aos comandos por causa da idade, do cansaço, da fraqueza, das costelas salientes e da extenuação, frente à s cargas excessivas a que são submetidos, durante 12 horas ou mais. Muitos são mal alimentados, mal ferrados, carentes de cuidados veterinários, e mancam devido à s infecções nas patas, agravadas pela escaldante temperatura do asfalto e, após a tortura do espancamento e dos ferimentos expostos, chegam a curvar, a tombar, a desmaiar, tamanha a exaustão.
Há relatos de que uma fêmea prenhe acabou abortando num trânsito infernal, durante o trabalho exaustivo, e o carroceiro continuou a impor o martírio à pobre mãe. Cansam os olhos e o espírito ver pela cidade os cavalos que, além da carga pesada que transportam, têm que suportar o peso de marmanjões, de pivetes - muitas vezes drogados -, que liberam a tara do sadismo nos pobres coitados, açoitando-os com chicotes, madeira e borracha, que lhes deixam visíveis marcas de dor. Nas instâncias turísticas, os pobres animais chegam a trabalhar enquanto houver a luz do dia, tendo de suportar, à s vezes, o peso de 300 quilos - peso da charrete, o do charreteiro e turistas -, quase não lhes sobrando tempo para comer e saciar a sede.
Esses animais têm um destino cruel, não há reconhecimento pelos serviços prestados. Servem de escravo a vida toda e depois são descartados, como um objeto por aqueles a quem serviram tanto tempo, ajudando na renda familiar.
Isto é um panorama do Brasil, e Piracicaba faz parte deste contexto. Há que se implantar medidas sérias, que obedeçam e complementem o que determina o Código Nacional de Trânsito, criando um sistema de cadastro de todos os animais de tração, emplacamento das carroças que facilitem uma fiscalização eficiente, até mesmo para as denúncias das atrocidades. É preciso achar mecanismos que disciplinem e fiscalizem a circulação desses veículos, criando autos de infração. Por outro lado, deve-se verificar, com rigor, se o cavalo tem condições físicas e o condutor as condições psíquicas para operação, da forma que o ocorre com os procedimentos utilizados para os motoristas e autos. E, por fim, que seja expedida ao condutor uma carteira de habilitação para um controle mais rígido, e que ele responda pelos atos de crueldade.
Está na hora de acordar, de respeitar os seres que não têm como pedir respeito e direitos. Ao cumprir as leis já existentes e aperfeiçoá-las, no sentido de coibir as barbáries e disciplinar o trânsito, vamos agir e pensar diferentemente de Descartes, cuja filosofia é a de que o animal quando se queixa simboliza o ranger de um mecanismo que funciona mal, sem lubrificação. Vamos abraçar essa causa como fez Nietzsche, ao se aproximar e abraçar, em soluços, um eqüino que estava sendo açoitado pelo cocheiro.
Ter somente pena não resolve. Devemos agir, repudiar atos cruéis dos que os praticam e dos que os ignoram.

salvador@cena.usp.br

Publicação autorizada, desde que os CRÉDITOS SEJAM CONSERVADOS E
FONTE CITADA: site “Florais e Cia” – www.floraisecia.com.br


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