São Paulo, 10/09/2010        
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ARTIGOS  PROTEÇÃO AMBIENTAL   
 


Boi quente


JOÃO O. SALVADOR



Depois do festival pirotécnico, das ruminâncias e regurgitâncias dos estômagos saturados pelos mais belos órgãos e tecidos dos aparadores de grama e dos debicadores, é hora de remoer e ruminar dietas mais saudáveis, de propriedades desintoxicantes que reduzam a emissão de gases poluentes, formados pela fermentação entérica, indesejáveis a qualquer ambiente.

Na verdade, existe um alarmismo tático do medo sobre o aquecimento global. O termômetro, no sovaco da Terra, indica hipertermia, sufoco, lacrimejo e destempero, pela ação dos antrópicos. Mas, neste diagnóstico, existem pesquisadores que se incrustam nas fendas dos icebergs, enquanto outros se aquecem das glórias, dos lucros, sob modelos climáticos ajustados para a guerra de egos.

A natureza é dinâmica, tem um passado, independe do bicho-homem e sempre se ajusta aos ciclos naturais. Sua ferocidade, todavia, desperta cálculos e suposições evaporáveis dos visionários apocalípticos. Sem a participação humana ela emite, anualmente, cerca de 200 bilhões de toneladas de gás carbônico, 25% das quais são retidas nos oceanos. Soma-se a esta, 6 bilhões geradas pelas atividades humanas, 3% do total, de maneira que há pouca lenha para tanta fogueira nas discussões sobre o óbvio, o de manter a obviedade.

Os vegetarianos vêm solidificando seu forte apelo emocional contra os carnívoros, ao lhes oferecerem uma canja fotossintética. Pois bem, existem sobejas razões da conjuminância do perfil humanitário com a questão do aquecimento, já que a pecuária brasileira é responsável por 50% das emissões de gases do efeito estufa -1 bilhão de toneladas ao ano, quando associada ao desmatamento para abrir pastagens na Amazônia (75%) e no Cerrado (56%). Somado às emissões derivadas da flatulência bovina, das queimadas, da energia gasta para a constituição dos pastos, da degradação das terras, do uso da energia na cadeia produtiva da carne, incluindo a lavagem, o preparo dos filés, transporte e armazenamento, sobrepujam a quantidade de gases expelidas pelos escapamentos dos veículos automotivos e das chaminés.

Os pastos, atualmente, ocupam 30% das superfícies emersas, enquanto que mais de 40% dos cereais colhidos são reservados para alimentar os rebanhos bovinos em confinamento. No Brasil são contabilizados 170 milhões de hectares para o pastoreio de 200 milhões de reses bovinas. Se para cada quilo de carne consumida são emitidos 300 kg de CO2 equivalente, então um boi, redondinho, gera cerca de 9 toneladas, e, o pior, pastando num espaço comparado a um campo de futebol. Só que os “barrigas-verdes” não sabem que a logística de produção é estabelecida pela previsão de consumo, ainda em pico vertical, e exige práticas racionais do aumento de produtividade.

O alarde causado pelo terror mediático atinge os mais inocentes, com uma canja oferecida para a desaceleração do processo “calórico”. Então, melhor mesmo é postergar o descalabro anunciado e colaborar, mesmo que seja para manter a prosperidade das grandes potências, que também serve para ajudar os miseráveis.

O Brasil pode fazer sua parte, ao invés de discutir abobrinhas, deve tomar ciência e seguir técnicas multiplicadoras, sem a expansão da área cultivada.

Podemos formar, também, agentes multiplicadores de consciência, mas acho, ainda, que devemos castrar parte da espécie predadora, danosa, ao meio ambiente, para que não gere uma prole conivente.



JOÃO O. SALVADOR é biólogo do Cena

(Centro de Energia Nuclear na Agricultura) - USP).

salvador@cena.usp.br

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