São Paulo, 24/05/2017        
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Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 


João O. Salvador
salvador@cena.usp.br

Não se aconselha tomar a terra de alguém, mesmo que nela pouco se produza e entregá-la àqueles que, para produzir quinquilharias, a desgasta, a depaupera, a empobrece, por falta de conhecimentos, de aptidão em cultivá-la. O grande absurdo governista, antes de recuar à pressão ruralista, era o de propor novos índices de produtividade aos agricultores, uma decisão política temerosa, de subserviência aos líderes do sem-terra, com custo alto pelo desestímulo aos que investem e produzem 140 milhões de toneladas de grãos, as que ajudam a equilibrar a nossa balança comercial.
Fabrica-se, atualmente, comida barata e de qualidade, graças aos conhecimentos adquiridos sobre a sustentação da planta pelo manejo adequado do solo, mas sob um custo de produção composto por insumos tecnológicos, distribuídos entre o capital humano, biotecnologia, fertilizantes, defensivos, máquinas, implementos, preço de mercado, regiões e riscos ambientais.
Desta maneira, qualquer senso pode diferenciar uma produção moderna de outra atrasada, ao considerar que a média de produtividade é baseada na difusão tecnológica, no tamanho das propriedades, na aptidão da cultura, na escala de produção, e, principalmente, quando o índice de produtividade se atrela à responsabilidade ecológica.
Se a vida é como ela é, e, a continuar assim, neste rincão dos sem-terra, jamais veremos plantações de porte produtivo. Veremos, sim, roças raquíticas de milho, feijão, abóboras, melancias e hortaliças, próximas às casas, cheias de pragas e doenças, apenas de subsistência, por não haver qualidade comercial, em razão da inexistência da obrigatoriedade de atingir metas. Se houvesse, aliás, um trabalho sério e transparente, de cálculos de preço para a obtenção desses produtos, os dados iriam mostrar quanto os contribuintes pagam pelas ninharias produzidas.
Há dez mil anos o homem vivia como catador de grãos e caçador de animais, em perfeita harmonia com a natureza, hoje, contudo, tem sobejos conhecimentos para explorar a terra, perturbar os ecossistemas para saciar a fome da humanidade, sem causar danos irreversíveis aos ecossistemas. Por essa razão, o governo não deve permitir que vândalos e fundamentalistas ajam em nome de uma organização que se desorganiza e aprova invasões destrutivas, descaracterizadas, com o propósito de pressionar, de chamar a atenção da mídia, que se aportam em terras alheias, igual a um bando de gafanhotos.
O plano precisa de um modelo mais bem orientado, de maior atenção do poder público para educar esta gente e capacitá-la para desenvolver projetos ambiciosos e sugestivos, que gerem renda, com colheitas de cereais, frutas, verduras e legumes de qualidade, de competitividade no mercado, o que lhe garantirá melhor qualidade de vida, satisfação pessoal, e, que, certamente, reduzirá os índices de violência no campo e nas cidades. Os assentados não podem continuar amontoados em moradias sem qualquer infaestrutura, similares às favelas urbanas, tampouco compartilhar com os que os desmoralizam.
Temos que liberar terras para a produção agrícola, mas com a capacitação dos que devem explicar seu crescimento, sem depender somente de enxadas, foices e pás. É inadmissível jogar um latifúndio improdutivo nas mãos dos que acham que o leite é um produto de uma caixinha, que a batata dá em cachos aéreos, igual a videira, confundindo alhos com bugalhos, reféns de um programa mal ajustado e politiqueiro.

João O. Salvador é e biólogo do Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) - USP. E-mail: salvador@cena.usp.br




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