São Paulo, 18/12/2017        
PÁGINA INICIAL
Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
Bafos e baforadas
JOÃO O. SALVADOR

O sistema nervoso, composto pelo encéfalo, medula espinhal, nervos e gânglios espalhados pelo corpo, é responsável pelo controle de todas as suas atividades. É através dele que aparecem as sensações de dor, frio, fome, medo, instintos, hábitos, vícios...
Embora usadas como sinônimas, as palavras hábito e vício têm conotações diferentes. Hábito é um costume, uma repetição freqüente de um ato, em determinado dia, ou horário, sob a ação consciente de quem o pratica. Fácil de mantê-lo sob controle. O vício, no entanto, é pernicioso, deixa a pessoa anormal, descontrolada, compulsiva, em razão da dependência física ou psíquica. Para os viciados na nicotina, as tragadas os enchem de prazer. Para os beberrões, os maiores tragos das destiladas os libertam da censura, do padrão alienante.
Com a implantação da lei antifumo em São Paulo ocorreram discussões democráticas, e, parte dela, ainda sugere certo radicalismo ou pretensão política da legislação, de punir somente os comerciantes, os que têm o poder para pagar os dízimos. Pelo menos, à luz da razão, a lei permite fumar, desde que os direitos dos não-fumantes sejam preservados.
As companhias tabageiras sempre aliciaram os jovens através de um forte apelo de marketing, sempre projetando imagens de fumantes amáveis, inteligentes, charmosos, maduros, responsáveis, bem-sucedidos, de aparências saudáveis.
O Brasil é um dos países de combate ao fumo. Pisa no freio do consumo pela informação, proibição de propagandas, de campanha de conscientização e de suportes terapêuticos. As indústrias da bebida também fazem seus apelos propagandísticos, dentro da logística de venda, como qualquer produto, mas as restrições em sua veiculação ainda são pequenas.
Apesar de sustentarem por décadas a inexistência da comprovação científica sobre os malefícios do fumo passivo, hoje há provas suficientes. Quem fuma, seja por via direta ou indireta, pode ter alterações genômicas que o predispõem às doenças pulmonares, cardiovasculares e carcinogênicas. Pelos estudos recentes, existem genes reparadores dos pares errôneos alterados pelo vício, de maneira que quanto mais cedo o indivíduo deixar de fumar, maior será a chance deste conserto.
Crítica construtiva não existe. Todas visam destruir uma realidade, mas como sugestão através de uma crítica-positiva, quem deixa de fumar tem economia de bolso, retomada para uma vida saudável, vida social mais respeitada, além de reduzir a poluição ambiental, pois, nas baforadas, a fumaça carrega, aproximadamente, quatro milhares de substâncias indesejáveis.
Para os etílicos exagerados, basta dizer que é justamente nas transformações dos álcoois que o fígado sofre mais, que os deixam com indisposição, com uma dor de cabeça terrível e um bafo insuportável. Os efeitos no cérebro causam comprometimento no equilíbrio emocional, elevam a pressão arterial, com riscos de ocorrências de acidentes cerebrais, além dos transtornos de relacionamento familiar.
Não significa afirmar, porém, que todos morrerão em conseqüência do vício, seja pelo gesto de fumar ou de beber. Existe, apenas, maior predisposição para as doenças.
O conselho é para que todos apaguem a sensação ludibriante das tragadas, se livrem do acúmulo de bitucas nos cinzeiros, da euforia enganosa dos grandes goles e do esvaziar de garrafas. Mesmo diante de tentativas fracassadas, saibam que vale a pena insistir, a vida é uma glória.



JOÃO O. SALVADOR é biólogo
salvador@cena.usp.br

<<Voltar para página Anterior

 

 

Topo^   

COLUNAS