São Paulo, 18/12/2017        
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Florais de Bach para animais
 
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Quem cortou os cabelos de Sansão?


Na natureza, vence o mais forte, todo mundo sabe disso. Na sociedade civilizada, vence quem tem melhor argumento. Na falta deste, vence quem fala mais alto ou quem não escuta o que seu suposto adversário está tentando dizer. (Porque a maioria dos adversários é criada na imaginação).
Essa disputa começa muito cedo, no ambiente familiar. No início é troca de sopapos, mesmo, e a vítima é sempre o irmão mais novo, que não tem tanta força quanto o mais velho. À medida em que vão crescendo, trocam-se as armas por outras mais civilizadas e até mais perniciosas: as palavras...Não ferem mais o corpo: matam a alma.
As pessoas crescem, mas o aprendizado da infância continua semelhante. O ambiente de trabalho é o prolongamento do ambiente familiar. Em uma escola, a diretora é a grande mãe (geralmente madrasta, a palavra no sentido das histórias da Carochinha) e as professoras, as filhas que se digladiam entre si, buscando o apoio materno, raramente alcançado. Quem olhava a mãe como adversária, olhará a chefe com os mesmos olhos. O chefe, as leis, o presidente, ocupam o lugar do pai e recebem o mesmo tratamento: respeito ou rebelião.
Algumas pessoas da família usam a seguinte tática com o outro:
1) mesmo calado, ele nunca tem razão.
2) tudo o ele que disser será usado contra ele.
Ao longo da história, muita gente foi destruída pelo poder das línguas, mas, apesar do exemplo deixado pelos nossos ancestrais, até agora a humanidade não aprendeu. Quantas pessoas queimadas vivas apenas porque disseram isto ou aquilo! Até o pobre-grande-sábio Lavoisier perdeu a cabeça em interesse de outrem, daqueles que o invejaram e difamaram.
Olhando fotografias de algumas famílias, senti o coração apertado. As mulheres e homens mais bonitos e inteligentes não se destacaram, tiveram vidas obscuras, sem nenhuma realização pessoal ou profissional. Os talentos ficaram escondidos no ambiente doméstico: bordados, poesias, desenhos, crônicas, aptidões desenvolvidas na solidão de seus quartos, com pouco ou nenhum reconhecimento, mas de grande valor e beleza. Eram tímidos... quem os tornou tímidos? Nasceram assim ou foi o resultado da competição familiar (Caim e Abel, Esaú e Jacó) que se inicia na infância e é prolongada na idade adulta através daqueles pequenos toques sutis entre irmãos do mesmo sexo, que mostram a cada um o seu lugar dentro da família?
Certas pessoas passam a vida inteira ocupando o lugar que seu irmãozinho, aos oito anos de idade, escolheu para elas. Na idade adulta ainda são dominados por uma criança.
O comportamento doentio, a paranóia, continua do lado de fora da casa. O ambiente de trabalho, muitas vezes, tem todas as possibilidades de ser mais saudável, mais leve. Poderia haver até, quem sabe, amizade lá dentro!...Mas não há amizade, há “panelinhas”. As qualidades das pessoas passam despercebidas, a bondade, solidariedade, os talentos são ignorados. No desespero da luta pelos próprios direitos, da defesa contra inimigos reais ou imaginários, ninguém se conhece. Casamentos feitos com amor e afinidade são desintegrados na luta pelo poder: cada um tentando fazer a tarefa de Deus: transformar o outro em sua própria imagem e semelhança... No final de ano, os problemas todos são “pseudamente” resolvidos com as festas de confraternização, com comidas e bebidas, que a maioria comparece por formalidade, porque vai ficar feio não comparecer...
“A gente não quer só comida”...Um gasto imenso, inútil e desnecessário. Comida e bebida a gente consegue em qualquer restaurante. Um toque de mãos, um braço ao redor dos ombros, que devia ser mais simples, e mais barato, é um peso enorme, porque abdicar do poder é difícil, por mais cruel que seja o resultado e porque qualquer gesto de carinho pode levar a interpretações maliciosas.
Quando eu era professora, cansada de ouvir os alunos da 5a série falarem mal dos colegas e trocarem apelidos pejorativos entre si, falei que cada um ia, agora, procurar uma qualidade positiva no colega e dizer alto, para ele ouvir. Espantei-me ao ver a vergonha estampada nos sorrisos e nos gestos de mãos cobrindo os rostos. Aquela foi uma tarefa penosa. Elogiar o outro é se humilhar, é baixar de nível, é perder o poder!
Sabe-se que a força de Sansão estava em seus longos cabelos. Quem cortou os cabelos de Sansão? Dizem que foi a mulher que ele amava, Dalila, mas acredito que as primeiras podas vieram do ambiente familiar, das pessoas mais importantes para ele. Geralmente o irmão que nasceu antes dele, a quem ele admirava, respeitava e suplicava migalhas de amor...Depois, com o tempo, ele mesmo aprendeu a cortá-lo sozinho...Afinal, foi isso que lhe ensinaram a fazer.
Para Sansão restam algumas alternativas: derrubar o templo e ser esmagado, juntamente com seus inimigos, construir um templo maior, para inveja dos que o subjugaram, ou, ainda, um pequenino templo particular, de tamanho suficiente para abrigar sua alma.
Nov/2004

Marina Morato da Costa– psicóloga (CRP 6960)
Psicóloga, Neurolinguísta, Reikiana, Silva Mind Control, Florais de Bach e Californianos.

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