São Paulo, 16/10/2017        
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Puxão de orelha
JOÃO O. SALVADOR

Com a necessidade de adaptação das espécies no processo evolutivo surgiu na espécie humana uma forte pressão de seleção. Acredita-se que o estresse e a ansiedade sejam uma forma de pressão social, sempre a favor dos mais aptos.
É certo que a globalização navega rumo ao portal de acesso à integração dos povos, porém ela facilita o desempenho ambicioso e mercantilista, de maneira veloz e competitiva, dentro do processo evolutivo, numa seqüência lógica, na qual os grupos corporativos, a minoria ideológica, mapeiam caminhos da verdade alienante, com a finalidade de evitar a formação de uma consciência crítica, da reprodução de uma sociedade organizada.
Todo este controle social é feito pelos meios de comunicação, baseado no modelo de ensino estabelecido por tecnocratas, os mesmos que defendem o ensino público, menos para seus filhos.
No Brasil, de acordo com o IBGE, 11,5% das crianças de oito e nove anos são analfabetas, percentual que supera a média nacional entre adultos, de 10%. No Nordeste, o índice infantil vai a 23%. No Maranhão, do clã Sarney, atinge o pico nacional: 38%.
A partir desses dados, conclui-se que todos recebem influência da educação, pois é a partir dela que se formam identidades, valores, ideologias, dogmas ou doutrinas. O que Charles Darwin não explicou, porém, é se os mais bem- adaptados são frutos da inteligência ou da safadeza, uma vez que se o povo brasileiro vive na ignorância orquestrada, não tem como refutar discursos padronizados, nem tampouco como se livrar dos velhos caciques, dos coronéis, transformados em representantes do povo, os que fazem de nossa Casa de Leis, um lamaçal nojento, putrefato.
O coronelismo manda-chuva está presente em vários Estados do Nordeste brasileiro, que ainda impõe o voto de cabresto, a bolsa-esmola, a sustentação do alto nível de aprovação do retirante nordestino, que se tornou um presidente errante, turista, conivente com os desonestos por razões óbvias.
Se existe um cenário devastador que infecta à cidadania, o caráter, em razão da bandidagem política, dos grileiros do poder, a culpa é nossa, falta-nos vergonha, atitude, decisão, o rubor na cara.
Pois bem: na seleção natural encaixa-se o fixismo, cujos seguidores nada fazem para mudar, por acharem que tudo o que ocorre é obra de uma programação divina, o que contribui para a passividade. Quem, então, diante da gestão fraudulenta do Congresso, da formação de quadrilha, dos escândalos sincronizados, se atreve a romper a linha egocêntrica, sair do comodismo e não admitir que os grandes saltos quantitativos sejam dados somente por algumas cabeças conscientes? Ser neutro, covarde, ingênuo e individualista, só interessa aos grupos dominantes, dos oportunistas, dos senhores do poder.
Portanto, é hora de abandonar as ilusões, mas não os sonhos, porque pelo menos, um sonho pode caminhar pelas vias sinuosas do inconsciente e encontrar a realidade. É hora, portanto, de seguir os setores progressistas da sociedade que buscam um ponto de convergência, na tentativa de formar uma classe pensante e agentes multiplicadores. Afinal de contas, quando alguém é tratado com justiça, eqüidade e respeito sua participação social é muito maior. Se o mundo é dos mais espertos, o importante é saber que a safadeza sempre se rende a um ato de sabedoria, de inteligência.

JOÃO O. SALVADOR é biólogo do Cena
(Centro de Energia Nuclear na Agricultura) – USP
salvador@cena.usp.br

Jornal de Piracicaba: 21/07/2009.

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