São Paulo, 24/05/2017        
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Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
Neste período de grande turbulência econômica, da histeria profunda e incurável do medo da gripe suína, do fastio do povo pelas lambanças e picaretagens dos congressistas, da corrupção sistêmica, o espaço para outros assuntos fica limitado.
Abordar grandes temas, inclusive, seria interferir nos direitos e vontade dos idealizadores de matérias exclusivas, dos títulos enormes, dos artigos em sequência, de mesmo assunto, em capítulos. Mas tudo faz parte da linha jornalística e democrática, para não menosprezar o baixo poder de síntese de alguns ilustres provincianos.
Nos artigos diários quase não há ciência, nem casos engraçados, mas sim os desgraçados, utópicos, expressos de maneira sádica, de pura conveniência ou conivência mediática. Outros textos, porém, apelam ao cosmos, às leis universais, em busca de preces, na tentativa de convergir a espécie humana para o bem, que atentam para as leis da ação e de reação, embora a opinião de muitos esteja associada aos medos, credos e descréditos, que foram embutidos no consciente humano, pela pestilência dos desígnios diabólicos profetizados por capítulos e versículos bíblicos, sempre a envolver o embate infinito entre Deus e satanás, por culpa da dívida contraída pela sua dupla cria.
Dizer o quê dos que impedem a liberação de transgênicos, com chances da obtenção de variedades de plantas mais nutritivas, de alto potencial genético de produção e de resistências às adversidades? Da utilização promissora das células-tronco na cura de males físicos que afetam a humanidade, cujas aplicações se esbarram nos setores ortodoxos da medicina, da política e de lobistas de seitas e religiões?
Dizer o quê sobre as queimadas de cana, que torra nossa paciência, a vida animal, desgasta o solo e o pulmão? Nem há mais espaço para falar sobre o torpor causado pelo embotamento inconcebível e irracional dos assassinatos de jovens, dos moradores de rua, dos crimes passionais, dos esquartejamentos e da pedofilia.
Dizer o quê, enfim, dos que insistem em suas crônicas, cartas ou e-mails, em afirmar que é preferível dar de comer a uma criança a tratar de um animal, quando ambos são idênticos, na fome, na dor, na alegria e na tristeza? Não seriam esses os que mais emporcalham o solo, córregos e rios com suas excrescências especistas?
Qual a importância de divagar sobre os cavalos esqueléticos, sedentos, exauridos pelo trabalho diário, com suas ferraduras escaldantes, num trânsito infernal e açoitados por infelizes, desajustados, sob o olhar omisso do Poder Público? Acho perda de tempo comentar sobre os miados pavorosos dos gatos envenenados, de patas flácidas, de caminhar trôpego à espera da morte; do canto melancólico dos pássaros enclausurados; dos cachorros errantes, famintos, esquálidos, doentes... Das crianças famintas, maltrapilhas, drogadas e violentas, abandonadas pelos que deviam protegê-las. Enfim, basta abrir os jornais e ver televisão para sentir o clima de desamor, de desajuste familiar, da falta de respeito com o próximo e com o ambiente.
É preciso ser exemplar, coerente, respeitável, pacífico e maduro, o mínimo que se exige para ponderar e refletir sobre a nossa conduta, para depois exigir que a espécie humana deixe de sustentar tragédias, de patrocinar ou fantasiar sua própria destruição.


JOÃO O. SALVADOR é biólogo do Cena
(Centro de Energia Nuclear na Agricultura)
salvador@cena.usp.br

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