São Paulo, 23/11/2017        
PÁGINA INICIAL
Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
JOÃO O. SALVADOR
Água virtual

Consumir água exageradamente, para produzir bens de serviços e consumo, só é considerado desperdício quando há impacto de sua subtração na zona de captação. O uso abusivo da água potável está intimamente ligado aos custos de captação, de adução, do tratamento químico, de maneira que, usá-la demasiadamente nos banhos demorados, na limpeza de calçadas, na higiene bucal, trazem custos.
Se a quantidade de água que atinge a atmosfera pela evapotranspiração é a mesma que se precipita para abastecer os mananciais e os aqüíferos freáticos, sua quantidade total é invariável no mundo. O que existe, na verdade, é uma irregularidade em sua distribuição, pelas mudanças climáticas, que provocam alterações no ciclo hidrológico. Por causa disso, a água já não é mais considerada um bem livre, de oferta ilimitada, diante da grande disparidade social e geográfica, em razão de sua escassez.
Embora o Brasil possua grandes reservas hídricas, que o deixa em situação bastante confortável, em relação aos outros países, a luta pela sua aquisição, em parte de seu território, é uma realidade, simplesmente por omissão no planejamento.
Um tipo de desperdício que intriga os ambientalistas sistêmicos é o da água virtual, aquela utilizada desde o início da cadeia de relações intersetoriais até chegar ao produto final, como a gasta para produzir um copo de suco, de cafezinho, um quilo de arroz, soja, feijão, porção de salada e do bife, só para exemplificar. Porém, no embalo das embalagens de exportação, ela segue para outros rincões.
Dizer que seu valor não é agregado, não condiz com a realidade, já que sua substancial oferta garante a competitividade brasileira com outros países com escassez. Mas o que não é permissível, porém, é alimentar os espertalhões, que subsidiam, escandalosamente, sua produção, que importam e precificam seus produtos, pelo preço real.
Se o mundo decidir terceirizar a alimentação a ser produzida no Brasil, para poupar seus recursos naturais, o governo brasileiro deve criar mecanismos mais fortes contra o lobby do agronegócio e interromper o fluxo do comércio predatório da Amazônia.
O Brasil produz 6,3 milhões de toneladas de carne bovina e 130 milhões de toneladas de soja. Se 1,3 milhão delas de carne e 30 milhões de soja são exportadas anualmente, baseando-se, que um quilo de carne contenha 70% de água e o da soja, 12%, para poupar e confinar gado europeu, basta calcular a quantidade de água que “evapora” do Brasil.
O gado ilegal modifica o clima e responsabiliza o governo, políticos e consumidores. O consumo paulista de carne vinda dos pastos amazônicos é de 23%, paranaenses e mineiros consomem, juntos, 22%. Os nordestinos, enfim, têm o bode, o jegue e as vaquinhas catingueiras, sedentas e esqueléticas para sua sobrevivência, mas enfiar goela abaixo que todos devem ser vegetarianos é ser imprudente e radicalista, sem qualquer noção de mercado, mas a estratégia de comer os assados somente de domingo, parece-me uma grande arma para frear o ímpeto das coivaras amazônicas.
Há, enfim, uma boa notícia: 28% dos brasileiros têm procurado comer menos carne, diante de um mercado que oferece muitas opções para o verde. Mas, em contraposição, para os sanguinolentos, o consumo de carne, no mundo, deve aumentar e muito, o que é preocupante.

JOÃO O. SALVADOR
Biólogo do Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura)-
USP (Universidade de S. Paulo).salvador@cena.usp.br

<<Voltar para página Anterior

 

 

Topo^   

COLUNAS