São Paulo, 18/10/2017        
PÁGINA INICIAL
Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 

Ninguém tem a autonomia de dar um destino à sua vida, mesmo em seus momentos terminais, insuportáveis e penosos, sob pena de cometer um suicídio, diante de leis de proteção à vida.
Nenhum médico é autorizado a interrompê-la, sob pena de cometer um delito, mesmo que seja por misericórdia, pelo desejo do paciente, ou de seu responsável legal.
Obrigatoriamente, um corpo clínico deve aplicar a distanásia, a continuidade terapêutica, mesmo que seja para prolongar a vida, sem qualquer perspectiva de cura, uma futilidade, enfim, que só rende ganhos hospitalares.
A escolha entre a vida e a morte é dramática, porque a lei, a bioética e a religião fazem uma bela salada de desrespeito, sem entender que os recursos tecnológicos têm seus limites, não levantam defuntos.
A eutanásia rende discussão no mundo todo, porém nada de objetivo, apenas controvérsias e acaloradas discussões. Enquanto isso, morrem às mínguas, à mercê de tanto sofrimento em vão, os que nada podem esperar do médico, que, embora movido pela vontade de atenuar esse padecimento, amargura, desesperança e angústia, sabendo que não existe remédio, não tem amparo legal. É possível que, em certos casos, haja um acordo tácito no meio médico com determinados prontuários, que dependendo do caso, o uso de certos medicamentos para pacientes terminais, como a morfina, usada como substância sedativa, para ajudar a deprimir o centro respiratório e acelerar a morte, seja administrada, mas o Código de Ética Médica veda sua a utilização.
Símbolos do sofrimento inconsciente, plugadas em diversos aparelhos para receber os elementos essenciais uma vida sem sentido, a americana Terri Schiavo e da italiana Eluana Anglaro, que foram mantidas em estado vegetativo por uma década e meia, acirra o debate sobre o poder dos justos e dos injustos, da vontade e honestidade humana, do direito de viver e de morrer em paz, sem sofrimentos ou em estado vegetativo irreversível.
Antigamente, diversos povos sacrificavam cidadãos considerados de menor valor, como deficientes, enfermos mentais, enfermos graves e moribundos, que com toda certeza, afirma-se que Darwin, mesmo depois de completar 200 anos de seu nascimento, ainda vive sob os escombros do dinamismo coerente, das etapas frontais sobre a evolução das espécies. Tanto é que nos dias atuais, os plantões médicos ainda escolhem os que devem sobreviver, seja pela idade, seja pelas condições financeiras e até pelo sobrenome.
Na visão materialista da vida, nada mais existe além da morte, não há uma alma que deixa o corpo com o peso 21 gramas, sem qualquer conotação científica. Mesmo que satisfaça a fé clara dos beatos, dos incautos, a escuridão ainda permanece sob os desígnios darvinianos e ponto.
A razão humana, através da investigação e dos padrões científicos, já admite, numa visão simples da vida, que algo deve ser feito, sem ser pecaminoso. Quem sofre de doenças incuráveis, sem qualquer réstia de esperança ou de fé, merece a caridade, a misericórdia, o descanso.
É evidente que os séculos se passaram e o mundo evoluiu. Mas ainda hoje, ato de promover a morte por compaixão, diante de um sofrimento brutal, continua a ser motivo de reflexão por parte da sociedade, pela imposição das diversas etnias e crenças. Cortar a vida para alguns é uma ofensa grave à dignidade humana, criada à imagem e semelhança de um criacionista, mas para outros, a vida é preciosa, mas não divina.
O fato é que ao pregar que o sofrimento sempre tem uma causa e faz parte de um caráter evolutivo do espírito, ou da obrigação de prestar contas ao rei do universo, faz muitos sofrerem nos instantes finais da vida corporal com perseverança e resignação.
Matar alguém de fome, definhando, é cruel e desumano, como no caso de Terri e Eluana, seres inocentes condenadas à morte, sem cometerem crimes, e, pior ainda, são as execuções sumárias pela fome, doenças e violência, existentes nos morros, nas favelas, nos países pobres, sempre com a relevância da teoria dos mais bem adaptados, que mata a esperança de muitos, claro.
Jogar fora uma vida não faz sentido, mas saber que não existe remédio capaz de manter um paciente simbolicamente vivo, por anos ou décadas, com o otimismo de reversão, da reação bioquímica, do milagre, é inútil.
JOÃO O. SALVADOR é biólogo do Cena
(Centro de Energia Nuclear na Agricultura)
salvador@cena.usp.br

<<Voltar para página Anterior

 

 

Topo^   

COLUNAS