São Paulo, 23/11/2017        
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Violência que começa sempre no grande escalão da sociedade

João O. Salvador

Infelizmente, certos provérbios não são aplicados para que os grandes desacertos da vida sejam corrigidos. Se todos colhem aquilo que plantam, mesmo que seja um ditado simplório, ao basear-se em fatos que vêm ocorrendo em vários setores – na política, no meio ambiente e esfera social –, parece que esse adágio não foge à realidade.

Na questão ambiental, embora haja sempre divergências quanto à relevância da contribuição antropogênica para certas mudanças, o planeta vem experimentando um clima incomum nas últimas décadas, com tendência a piorar.

A natureza se vinga de quem a ignora, dos que colocam seus interesses acima de tudo, dos que buscam riquezas, sem qualquer preocupação com os riscos ambientais. Muitos dos esclarecidos se calam, outros apenas justificam os benefícios de suas torpes razões.

São os corporativistas e lobistas que falam mais alto, esvaziam plenários, relaxam leis. A humanidade está esgotando os recursos oferecidos pelo globo numa velocidade superior à sua capacidade de reposição. Não há, por enquanto, um planeta sobressalente.

Com base no Brasil, muitos ecossistemas já estão extremamente fragmentados, degradados. As florestas são valorizadas somente para a extração da madeira, e, conseqüentemente, para produção de grãos e de carne, que levam para outros rincões, nossas riquezas, a preço, literalmente, de banana.

O desmatamento amazônico e a pecuária respondem pela maior parte das emissões brasileiras de gases que provocam o aquecimento da atmosfera. A destruição crescente de florestas nativas impede o trânsito de animais e a troca de material genético, sem a qual não se garante a renovação natural e a diversidade genética da flora e fauna.

O tráfico incontrolável, rentável de animais silvestres e a volta das peles às passarelas da moda, aceleram a sentença de morte de milhares de animais em risco de extinção. As queimadas criminosas, ou amparadas por leis absurdas, fazem o verde ficar negro, a atmosfera acinzentada, com o cheiro de churrasco do mundo animal.

Por outro lado, há uma imensa dívida com a qualidade dos recursos hídricos. Se a água com qualidade garante a todos uma vida saudável, quando ela deixa de ser inodora, insípida e incolor, pode funcionar como veículo de doenças, verminoses e intoxicações das mais diversas. A ocupação ilegal e adensada da população em áreas de mananciais contribui para o desmatamento, assoreamento e a poluição de reservatórios que serve as grandes cidades.

Do ponto de vista social, promessas e mais promessas de políticos, muda governo, enquanto os problemas nacionais, há tempo, vêm ultrapassando dos limites. A incapacidade administrativa, a ganância, o egoísmo, a corrupção, a impunidade que caminha à solta e a passividade daqueles que se julgam inocentes, deixam o país menos unido, menos otimista, menos democrático, porém muito mais violento e sob o domínio do medo. Violência que começa sempre no grande escalão da sociedade, através dos grandes desvios de dinheiro público, praticados pelos mais diversos esquemas, que impedem o investimento em educação, saúde, habitação e no bem-estar social.

Propagandas e discursos vazios e a corriola não tira o traseiro de uma poltrona confortável. Destinam-se fortunas em projetos até para se estudar o óbvio, por força do modismo científico, reduzindo, com isso, os recursos para combater as doenças que dizimam milhares de pessoas todos os anos. E ainda, para decepção de muitos, doenças consideradas erradicadas, ressurgem paulatinamente.

Nada contra o desenvolvimento, mas o homem não pode continuar na sua cega e obcecada marcha inexorável e acelerada que destrói as bases naturais de sua própria existência, da sustentabilidade, da qualidade de vida para todos os seres. Basta aprender que em certos casos a direção pode ser muito mais importante que a velocidade das conquistas.

João O. Salvador é biólogo do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena). E-mail: salvador@cena.usp.br.

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