São Paulo, 23/08/2017        
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Florais de Bach para animais
 
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No início era o Caos, disse o poeta Hesíodo, no séc.VIII a.C.

Inefável, puro mistério, do Caos surge a primeira manifestação de uma base sólida, material, geradora de todas as coisas: Gaia, a mãe-terra, de onde nasceriam as forças titânicas que iriam povoar o mundo. Os mitos falam de deuses no início das eras, a ciência fala de processos físico-químicos. Nomes diferentes para o mesmo mistério da Vida.

Mas, nada disso muda o fato de que nossa mãe Terra é uma venerável anciã de 4,5 bilhões de anos. Durante todo esse tempo -- inimaginável para nossas pequenas mentes -- a Vida foi evoluindo em formas cada vez mais complexas, até chegar a nós, seres humanos. Mas, como se deu isso?

Os cientistas afirmam que foram precisos alguns bilhões de anos para que a Terra reunisse os principais ingredientes químicos que iriam dar origem aos organismos vivos que hoje conhecemos: o carbono, que depois combinou-se com o hidrogênio, o oxigênio, o nitrogênio, o enxofre e o fósforo. Essa mistura exigiu inteligência. Não se faz uma sopa química de tal magnitude ao acaso. A combinação desses elementos foi o que deu origem a primeira forma viva no planeta: as moléculas e à s bactérias.

Se as moléculas eram a única forma de vida no planeta, como se alimentavam? Elas sacaram que a fermentação podia ser uma excelente fonte de alimento; depois descobriram a fotossíntese. Após bilhões de anos de experimentação perceberam que era muito mais fácil sobreviver através da associação com outras formas vivas. Elas acabavam de descobrir uma forma de evolução inteligente que é a simbiose. Combinando-se entre si, as bactérias conseguiam produzir novas e maiores comunidades biológicas. Era o triunfo da cooperatividade e da criatividade na origem da evolução.

E assim plantas e animais foram sendo criados a partir de uma sucessão de simbioses que durou bilhões e bilhões de anos. Longo tempo de experimentação. Vejam alguns números: os primeiros animais evoluíram na água por volta de 700 milhões de anos, e os vertebrados há 500 milhões; nossas lindas samambaias existem na Terra há 350 milhões de anos; e os mamíferos de sangue quente surgiram há cerca de 200 milhões. Durante todo esse tempo a natureza burilava suas criações, aperfeiçoando-as de forma inteligente.

O "homo sapiens"

Se nada foi criado ao acaso, será que poderíamos pensar que havia um propósito em tudo isso? Seria a Terra um ser inteligente?

Muitas formas de vida foram extintas nesse longo processo de seleção natural. A forma humanóide foi sendo lapidada aos poucos, primeiramente pelos antropóides que surgiram há 4 milhões de anos. O autralopithecus, que significa "símio antropóide do sul" foi descoberto na África do Sul. Mas nosso ancestral mais conhecido foi o ‘homo erectus" encontrado na Ásia. Seus fósseis tinham a idade de 1 milhão de anos. Não se sabe porque, mas esses proto-hominídeos que andavam eretos também desapareceram do planeta há cerca de 250 mil anos. O que será que deu errado com eles?

A existência humana no planeta é absurdamente recente. Se foram necessários bilhões de anos para uma forma de vida sobreviver e evoluir, o "homo sapiens" (homem sábio) representou um salto qualitativo, porque surgiu apenas há cerca de 100.00 anos atrás. Tinha o porte de um homem moderno, anatomicamente correto, além de possuir uma linguagem desenvolvida e simbólica. Deixou gravado em cavernas representações artísticas e religiosas de seu estilo de vida, suas crenças e medos.

O "homo sapiens" possuía uma sabedoria que o diferenciava dos outros seres vivos. Essa sabedoria inata foi chamada de "consciência". Ou seja: o ser humano surgiu na Terra junto com a consciência. Isso fez toda a diferença.

Mas, será mesmo que ele tem usado com sabedoria a sua "consciência? Será que continua "sapiens"? Ou se tornou, nesses poucos milênios da idade geológica da Terra, um "homo demens"(homem demente)?

A Grande-mãe

Na antiguidade, todas as culturas reverenciavam a Terra como a uma deusa. Havia a deusa Nut para os egípcios, Deméter para os gregos, Ashtar para os babilônios. Depois da grande revolução da agricultura, o princípio mais festejado era a abundância e a fertilidade da terra, a colheita, a fartura dos alimentos. Por isso reverenciavam a Grande Mãe como a representação simbólica da Vida. Esta concepção é tão arquetípica que os índios norte-americanos da tribo Wanapum, em pleno século XIX, se recusaram a preparar a terra para o cultivo, dizendo: "Devo pegar um facão e rasgar o seio de minha mãe?"

Mas, em algum momento da história, uma facção da humanidade se revoltou contra essa idéia e decidiu cortar o cordão umbilical que a ligava ao princípio feminino da Terra. Era meados do século dezessete. Um intenso movimento cultural começou a ganhar força e poder com argumentos convincentes e promissores. Nasciam os filósofos da ciência. Por princípio eles recusavam veementemente a idéia de seus antepassados de que tudo na natureza era vivo e inteligente, e demonstravam leis que provavam ser o mundo uma grande máquina que funcionava mecanicamente. Bastava saber manejar seus controles e ela agia conforme a vontade do maquinista. E bem depressa esqueceram a "alma" da natureza, sua inteligência e finalidade. A idéia de que a Terra possuía uma alma foi abandonada como ingênua, mística, primitiva. Gaia deixava de ser sagrada. Como uma coisa inerte e sem vida própria, passou a ser explorada, consumida, usada, devassada, vendida.

O delírio de poder da ciência

Sabemos que a revolução científica foi necessária até certo ponto; mas em seu extremo, ela abriu as portas para um delírio faustiano de poder. Dr.Fausto, personagem central de um romance de Goethe, tinha um obsessivo desejo de saber e poder. Mas, para obter isso era preciso fazer um pacto com o diabo. Este é o dilema faustiano que estamos vivendo. Este parece ser o espírito que predomina nas fantasias da genética, das clonagens, da produção transgênica, do tecnologismo industrial, das armas nucleares, do lucro a todo custo. Só que esse pacto demoníaco está levando a Terra de volta ao Caos...

O debate entre essas duas formas de ver a Vida ultrapassou há muito os muros da ciência e da filosofia. Hoje faz parte da política. Sobreviver virou um ato político. A começar pelos alimentos que ingerimos. Na década de 90 agricultores tradicionais indianos, apoiados por consumidores europeus, promoveram um espetacular boicote aos alimentos transgênicos e uma volta da agricultura orgânica. A repercussão em países do primeiro mundo foi grande e gerou o comprometimento de alguns grandes supermercados europeus de eliminarem de suas prateleiras os transgênicos.

Um estudo feito pelo Banco Mundial e pela FAO relacionou a produção de alimentos no mundo com a degradação ambiental e a fome. Eles constataram que a utilização progressiva sobretudo da carne bovina tem gerado um alto custo em termos de terra, água e energia. Além disso, é necessário produzir cada vez mais uma grande quantidade grãos que vão ser usados para alimentar os animais.No Brasil, 44% da cultura de grãos é destinada ao rebanho bovino que, por sua vez, vai alimentar uma pequena parcela da população com poder aquisitivo para se alimentar de carne.

Mas, tudo isso reflete a perda dos parâmetros do sagrado que sustenta a Vida. Um animal que é abatido para exploração comercial nada mais é que uma peça inerte que não sente nem sofre. Uma árvore a mais que cai sob a fúria das moto-serras é apenas lucro. Um rio poluído pelas toneladas de lixo tóxico das indústrias não faz diferença. O que está em jogo é uma mudança de visão de mundo.



A Terra é Viva

O cosmonauta russo Aleksandrov, ao ver lá do alto a Rússia e as terras da América, compreendeu o absurdo que é uma guerra entre países. Ele disse: "Fiquei impressionado ao ver que todos nós somos filhos da Terra! Não importa para qual país você olha. Todos somos irmãos!"

A filosofia holística que se desenvolveu nos últimos sessenta anos é um resgate daquela antiga visão de nossos ancestrais, que percebiam Gaia como um organismo vivo e auto-regulador, com capacidade de criar e manter as condições favoráveis à Vida. Se Gaia é uma entidade animada, então ela deve possuir uma "alma", um princípio organizador, com seus fins e propósitos.Esta é a tese de James Lovelock, que após estudar os efeitos químicos da atmosfera, das atividades geológicas e químicas dos oceanos, afirmou: "Em Gaia, somos apenas uma outra espécie, não somos nem os proprietários nem os administradores deste planeta. Nosso futuro depende muito mais de um relacionamento correto com Gaia do que com o drama infindável dos interesses humanos."

Pode parecer incrível que em tão pouco tempo de vida neste planeta tenhamos criado tamanhos transtornos, diria que quase de dimensões cósmicas! Na consciência está, apesar de tudo, a solução. Se a evolução caminhou até hoje num sentido horizontal, biológico, agora ela avança no sentido vertical, da consciência. Como preconizou o Pe. Chardin, estamos indo em direção a um ponto situado para além do plano material. A humanidade é apenas um elo de uma cadeia evolutiva que segue além em busca do ponto Ômega. Este ponto é a espiritualidade. Este é o olhar além que buscamos.
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* A Dra.Mani Alvarez é psicanalista de orientação Transpessoal e Diretora de Planejamento do Instituto Humanitatis - www.humanitatis.com
Colaboradora do site www.floraisecia.com.br










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