São Paulo, 23/08/2017        
PÁGINA INICIAL
Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
A Amazônia não é apenas a maior floresta de clima tropical do mundo, mas também um estoque de biodiversidade. Possui a maior variedade de espécies animais e vegetais do planeta. Essa biodiversidade tropical só começou a ser aceita a partir da década de 80, quando os conceitos sobre a floresta começaram a mudar. A cultura tradicional e seus conhecimentos seculares obtiveram reconhecimento do setor científico, através das explicações científicas das práticas caboclas e indígenas, anteriormente consideradas apenas intuitivas e ingênuas.
A floresta funciona como um suporte de proteção para os 70% de água doce existente no país, porém nos últimos anos, o ritmo de desmatamento na Amazônia vem crescendo assustadoramente. Em um estudo de futurologia ecológica, concluiu-se que até 2020, ela perde 42% de floresta, em conseqüência do plano federal Avança Brasil. O desmatamento induzido pela nova infra-estrutura - construção de estradas e atividades adjacentes - pode causar relevante impacto sobre a cobertura vegetal. Se todas as estradas do plano forem pavimentadas ou construídas, a Amazônia perderá cerca de 180 quilômetros quadrados de florestas em três décadas, concluem alguns pesquisadores. Somente no último ano, a degradação foi equivalente ao Estado de Sergipe (22.050 km2) e, mantidos os níveis anuais de desmatamento, seguramente atingirá a dimensão do Acre (153.149 km2) em menos de dez anos.
A degradação do meio ambiente é um problema universal, porque atinge a todos indiscriminadamente. Porém, nem todos cooperam na busca de soluções. Os países desenvolvidos não evitam descarregar somas brutais de detritos das chaminés de suas fábricas. Deixam de fazer a lição de casa, contudo pressionam os países subdesenvolvidos para que a faça. Há décadas, também, que tentam desmistificar que a floresta amazônica não é o "pulmão do planeta", tampouco e patrimônio da humanidade; que a idéia de que a floresta absorve gás carbônico e devolve oxigênio é um mito, porque argumentam que somente as árvores em fase de crescimento absorvem gás carbônico e, que, em termos de sistema mundial, as florestas tropicais são irrelevantes, já que o clima mundial é governado pelos oceanos.
Apesar de constituir a peculiar variabilidade de espécies, de inegável potencial para produção tecnológica, é importante, acima de tudo, estabelecer uma política de desenvolvimento para a Amazônia. Sua exploração deve passar, necessariamente, pela busca de soluções economicamente e ecologicamente viáveis, respeitando a verdadeira vocação dos diferentes sítios geográficos da região, através de um zoneamento climático e pedológico, buscando, sempre, a conservação ou o manejo sustentável da diversidade biológica. Desenvolver, sim, respeitando, acima de tudo, o direito de integração de 20 milhões de pessoas que escolheram esse ambiente para viver, e para isso há que viabilizar a melhoria das comunidades amazônicas.
Cerca de 83% da Amazônia possui vocação florestal. Nessa parte, chove demais e os solos são predominantemente pobres para comportar agricultura ou pecuária produtiva. Essa obviedade justifica o fracasso das três décadas de tentativas. Diante dessas condições, parte dessa área pode ser usada para a extração racional de madeira, gerando mais empregos, e arrecadação de impostos, com a adesão obrigatória, é claro, dos madeireiros ao manejo sustentável. O restante deve permanecer inexplorado, protegendo os ecossistemas aquáticos, com uma intensa vigilância para evitar a biopirataria - tráfico de plantas e animais para o exterior. Pescadas ilegalmente, 15 mil toneladas de peixes vão para a Colômbia anualmente, o que levará 15 anos para algumas espécies como o surubim, caparari, jaú e a piramutaba a desaparecerem (OESP-11/02/01 - Pág. A15). Os incentivos à introdução de indústrias de bioprospecção, fitoquímicos e o ecoturismo, bem como, o emprego de um sistema eficiente de controle das queimadas, ajudam na preservação.
As áreas exploradas não devem, todavia, ser consideradas de terra devolutas ou designadas para a reforma agrária, em razão das condições adversas para a agricultura. As áreas degradadas pelas pastagens e abandonadas, deverão ser recuperadas através de sistemas agroflorestais.
Os projetos agropecuários deverão prosperar nas áreas com baixo potencial para produção florestal, compreendendo partes dos Estados de Rondônia, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão, principalmente nas áreas de cerrado, onde não chove tanto. Além disso, os solos de cerrado quando bem manejados são altamente produtivos, haja vista a produtividade recorde de soja nessa nova fronteira agrícola, graças à s pesquisas de instituições brasileiras, que, através de melhoramento genético, introduziram espécies vegetais em latitudes que nunca foram cultivadas anteriormente.
Por fim, se a Amazônia não é o patrimônio da humanidade, por não ser o "pulmão do mundo", todavia o será pela maior fonte de proteína do planeta, presente nos seus rios, lagos, lagoas e iguarapés. Suas plantas medicinais serão importantes para a saúde mundial, aliviando, até mesmo, a dor-de-cotovelo de muitos países por não terem este privilégio. Para isso, os amazonenses devem obter maior controle sobre seu destino, envolvendo-se em projetos de sustentabilidade, pois só assim o Brasil se livrará, de uma vez por toda, do grande estigma que se criou sobre a Amazônia, de que no futuro será uma área de gerência internacional. Resta, apenas, as pesquisas avaliarem o impacto ambiental de todas propostas apresentadas para a exploração sustentável da Amazônia, visando conciliar o desenvolvimento com a preservação ambiental.
*******
João Salvador - biólogo do CENA (Centro de energia nuclear na agricultura - USP);
colunista do site Petgree - www.petgree.vet.br ;
colunista e co-responsável pelo site Santa Ignorância ! - www.santaignorancia.rg.com.br ;
colunista do site ABC Animal - www.abcanimal.org.br ;
colunista do site Petfeliz - www.petfeliz.com.br ;
colaborador do "Jornal de Piracicaba", "Gazeta de Piracicaba" e "Tribuna Piracicabana".
colunista do site Florais e Cia - www.floraisecia.com.br
e-mail: salvador@cena.usp.br


<<Voltar para página Anterior

 

 

Topo^   

COLUNAS