São Paulo, 25/06/2019        
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Florais de Bach para animais
 
ARTIGOS     
 
Você sabe exatamente o caminho que a carne faz até chegar ao seu prato? Pois
o biólogo Sergio Greif visitou vários matadouros e conta o que viu:
Passei alguns de meus últimos anos no interior de São Paulo, fiscalizando
fontes de poluição ambiental: usinas de açúcar e álcool, fábricas que
processamento de polímeros, fundições etc. Mas nada me pareceu tão poluente
e agressivo quanto os curtumes e abatedouros de animais. Estas atividades
são, é claro, extremamente poluentes, mas pretendo falar sobre este assunto
em outra ocasião. Gostaria de reservar este momento para falar sobre uma
outra forma de violência, aquela que presenciei nos matadouros e abatedouros
de animais.
Embora o sofrimento do animal que será abatido se inicie já em seu
nascimento, é no matadouro que ele encontra o seu fim. Não é um fim
agradável, tranqüilo ou sem dor, como muitas pessoas querem acreditar. As
pessoas são levadas a crer que os animais que lhes servem de alimento
levaram uma vida de prazeres, brincando nos campos com outros animais de
fazenda e que em determinado dia estes foram transportados e abatidos de
forma indolor. Esta é a imagem que a indústria da carne nos passa, com suas
propagadas de animais sorridentes e suas embalagens coloridas que quase não
sangram.
As pessoas não acreditam, ou não querem acreditar, que animais de corte
tiveram toda uma existência miserável, privados da luz do sol, do ar fresco,
de pisar a terra. O objetivo de uma criação de animais de corte não é, é
claro, o bem estar dos animais. O objetivo é lucro, produzir mais carne, em
menor espaço e no menor tempo possível. Desta maneira ovinos, suínos e
frangos são criados em locais com alta densidade de indivíduos, em espaços
mínimos que limitam seus movimentos e o desempenho das atividades mais
básicas, características de suas espécies. Os bovinos ainda são criados de
maneira extensiva no Brasil, mas esta realidade tende a se alterar com o
aumento na demanda e profissionalização do setor.
Descrever o que acontece em um matadouro não é uma tarefa fácil.
Provavelmente ler sobre o que lá se passa também não seja, mas acredito que
temos a obrigação de divulgar estas verdades, e desfazer os mitos que se
formam, de que os animais não sofrem com o abate. Todo aquele que se
alimenta de animais tem o dever de conhecer este último e importante passo
na vida da comida que tem em seu prato. As descrições que se seguem
representam o que pude presenciar do abate de animais. Quando forem citados
procedimentos diversos aos quais presenciei, farei menção a isto.

Matadouros de Gado

Os animais são transportados em caminhões de transporte de gado, geralmente contendo 12 animais, que tentam se manter em pé enquanto o veiculo se desloca. Os animais são geralmente trazidos de fazendas próximas ao abatedouro, mas em alguns casos provém de localidades mais distantes, o que significa que este transporte pode durar várias horas.
O caminhão adentra o matadouro e os animais são descarregados a chutes e pontapés em um terreiro cercado (imagino que eles foram colocados no caminhão também na base do chute). Neste terreiro os animais ficarão à espera por algumas horas, pois os abates quase sempre ocorrem durante a madrugada.
Não pude presenciar a hora em que o abate começa, devido ao horário, mas
imagino que os animais são enfileirados no corredor que leva à sala onde
serão abatidos. Nas primeiras horas da manhã é evidente o estresse que estão
vivendo os que ainda esperam a vez de entrar na sala do matadouro, pois
estes presenciaram a morte de todos os animais que foram na frente. Seus
olhos aparecem saltados na órbita, bem irrigados de sangue, e seus mugindo
são desesperados e frenéticos.
Estes animais ouviram o que aconteceu com os animais que foram à sua frente, sentiram o cheiro de seu sangue e possivelmente viram alguma cena
desagradável, é claro que resistem até onde podem para não passar pelo
corredor que leva à sala do matadouro. Por este motivo, um funcionário do
estabelecimento os força a fazê-lo dando chutes e eletrochoques através de
uma vara. O animal vivencia um verdadeiro pânico, e tenta recuar, mas é
empurrado para frente pelo animal que vem atrás, que também está levando
eletrochoques. Ele tenta se jogar para os lados, mas as barras de aço só lhe
permitem que avance para frente.
Ao entrar na sala do matadouro, o animal presencia por cerca de um minuto o
que está sendo feito com seus companheiros, alguns já pendurados, alguns
sendo fatiados em diferentes processos, seu sangue e suas tripas espalhados
pelo chão da sala. O animal em vão tenta escapar, mas está completamente
cercado por barras de aço. Neste momento o animal sofre o processo que se
chama "insensibilização". No caso dos matadouros que estive visitando, esta
insensibilização é feita com uma pistola pneumática, mas em muitos
matadouros a insensibilização ainda é feita a golpes de marreta. A pistola
pneumática dispara uma vareta metálica no crânio do animal, perfurando-o até
o cérebro. Diz-se que este é um método "humanitário", pois o animal não
sofre dor e permanece desacordado por todo o resto do processo, mas a
verdade é que não podemos saber se aquele animal de fato não sentiu dor.
Certamente a pistola o torna imóvel, mas o animal não parece desacordado,
apenas atordoado e impossibilitado de reagir. Algumas vezes, um mesmo animal
precisa ser insensibilizado mais de uma vez, o que mostra que este não é um
método "humanitário" nem indolor.
No passo seguinte, o animal é pendurado de cabeça pra baixo em uma corrente, suspenso por uma das patas traseiras. É possível que neste momento o peso do animal trate de romper alguns de seus ligamentos, destroncar seus membros.
No momento em que o animal é suspenso, percebo que sua cabeça ainda se move.
O funcionário do matadouro diz que são espasmos, contrações involuntárias,
que o animal já não pode sentir. Mas seus olhos ainda piscam, a língua ainda
se mexe, tentando conter o vômito e puxar para dentro o ar. Este animal não
está sentindo dor?
O animal é então sangrado, degolado, estripado e esfolado. O sangue que
jorra é recolhido em parte para uns tonéis, mas a maior parte cai em uma
canaleta. As fezes e o vômito são recolhidos em outra canaleta. Com enormes
facas sua barriga é aberta e as tripas são jogadas no chão. Alguns animais
ainda parecem se mexer nesta etapa e a impressão que tenho é que eles podem
ver suas tripas no chão. O sangue e as tripas serão encaminhados para o
setor de processamento de embutidos (lingüiças, salsichas, etc.).
O couro destes animais que servem para a produção de carne não é considerado
de boa qualidade, mas mesmo assim ele é retirado para uso menos refinado.
Após isso o animal é baixado e são retirados os testículos, as mamas, patas
e língua. Estas ‘peças’ são comercializadas como iguarias ou são
encaminhados para o setor de ‘graxaria’, de onde sairá o mocotó e a gelatina
Como os matadouros que visitei possuíam uma grande produção, uma "linha de desmontagem" como diriam alguns, pouca atenção era dada para cada animal e
mesmo na etapa de retirada do couro e desmembramento, alguns animais ainda
estavam se mexendo. Neste matadouro o couro é retirado quase completamente
por uma máquina que parece uma máquina de fazer massas, o funcionário apenas
tem que separar o couro em alguns pontos.
Finalmente, ocorre o corte seccional da "peça". O animal é dividido em duas
metades e a carcaça é lavada. Neste momento, dependendo da finalidade, o
animal poderá ser retalhado em cortes ou sua carcaça poderá ser levada para
o frigorífico. Quando a carne chega à câmara fria, o calor do animal ainda
emana dela. As carcaças são penduradas em ganchos enfileirados e apesar do
frio, o cheiro nauseante da carne é perfeitamente perceptível. Dali a carne
seguirá para os açougues e mercados.
Matadouro de suínos

O abate de suínos é um pouco diferente do abate de bovinos. Alguns dos
matadouros que conheci simplesmente não o faziam, outros reservavam um dia
da semana para o abate de suínos e apenas um possuía um programa de abate
constante de suínos. Os porcos são criados em sistema de confinamento,
diferente do gado bovino no Brasil. Estes animais são criados em baias
cobertas e muitas vezes ficam isolados do chão. Recebem ração de engorda e
jamais tem a possibilidade de chafurdarem a terra, comer grama, etc. a idéia
é que o animal receba alimentos calóricos e que gaste pouca energia
movimentando-se. Desta forma o animal ganha peso em menor tempo. Nos últimos
dias, os que antecedem o abate, o animal recebe menos ração e um ou dois
dias antes recebe apenas água. Isto se dá para que na hora do corte, haja
menos fezes transitando pelo trato digestivo, o que facilita a limpeza da
carcaça do animal.
Os suínos chegam em um caminhão de transporte, em engradados empilhados em andares, as fezes dos porcos de cima caem sobre os porcos de baixo e o
cheiro do caminhão como um todo é insuportável, mesmo quando se está
dirigindo atrás de um destes em uma rodovia, a 120 km/hora. No matadouro, os
engradados contendo os animais são descarregados sem grandes cuidados. Os
animais são forçados a saírem à base de pontapés ou sendo cutucados por
porretes. No terreiro de espera, os animais ouvem o que se passa com os que
já adentraram a sala do matadouro, e se desesperam. Não pude deixar de notar
em uma de minhas visitas a um destes matadouros, que em momento algum os
porcos silenciavam. O tempo todo em que os animais aguardavam no terreiro,
um funcionário do matadouro tentava acalmá-los, batendo-lhes com um porrete.
Da mesma maneira, para que entrassem na sala de abate, os animais eram
conduzidos com chutes e clavadas.
Na sala de abate o animal recebe um eletrochoque, que lhe causa uma
paralisia, mas certamente não a sua morte. O animal é então suspenso por uma
das pernas e degolado com uma faca (o sangue é recolhido para um tanque) e
suas tripas são retiradas. Em seguida ele é mergulhado em um tanque de água
fervente e depois é desmembrado. Devido à velocidade com que este processo
ocorre, algumas vezes o animal é mergulhado ainda vivo e consciente na água
fervente, e chega ainda piscando os olhos na mesa de corte e esfola.
Matadouro de aves
O abate de aves ocorre em estabelecimentos especiais denominados
"abatedouros de aves". Conheci abatedouros grandes, das maiores empresas
nacionais e que vendem seus produtos para o mundo inteiro. Por este motivo,
o fluxo de atividades nestes estabelecimentos é constante. Vê-se filas de
caminhões trazendo frangos de diversas granjas para serem abatidos. Os
animais são transportados em pequenas gaiolas contendo 5 ou 6 aves, muitas
delas já chegam mortas devido ao estresse do transporte e ao tempo de espera
Presenciar o descarregamento destes animais é uma visão única.
As gaiolas são abertas, e os animais são presos pelas patas, de cabeça para baixo, em ganchos presos a uma esteira. Os animais perecem não ter reação nenhuma.
Certa vez vi a esteira parar para o almoço dos funcionários, algumas gaiolas
já estavam abertas. As aves continuaram ali, mesmo as que saíram das gaiolas
apenas se empoleiraram na grade, não tiveram o impulso de sair. Uma das aves
que foi parar embaixo do caminhão ficou lá por mais de uma hora. Não é que
estes animais não tivessem amor por sua própria vida, mas sim o fato de que
jamais tiveram a oportunidade de exercitar seus músculos.
A maioria daqueles animais tinha cerca de 45 dias de vida e foram criados para terem coxas e peitos macios e enormes, não para andarem por aí. Por este motivo, eram incapazes de dar mais do que alguns passos. Nas esteiras, os animais são levados para a sala onde ocorre o abate.
Ali recebem um choque de pequena voltagem, que deveria servir para atordoá-los, mas na verdade, apenas deixa as aves mais agitadas. Pergunto por que não
aumentam a voltagem, desta forma as aves simplesmente morreriam ou seriam ao
menos atordoadas. O gerente de produção me explica que se eles aumentassem a
voltagem o animal de fato morreria, mas isto também endureceria a carne.
Elas seguem então para uma máquina que procede a degola automática e depois
tomam um banho escaldante. São então depenadas e estrinchadas. Muitas vezes
ainda estão vivos quando chegam a estas ultimas etapas, tendo sobrevivido
inclusive à fervura. Presenciei inclusive animais que em uma ou outra fase
do processo se soltam dos ganchos e caem no chão, ficando lá se debatendo.
Os funcionários não fazem nada para abreviar seu sofrimento, pois não podem
se desligar de suas atividades na esteira.
Desta forma, a morte destes animais é ainda mais lenta e dolorosa.
Quem são os responsáveis por estas mortes? Mesmo uma pessoa sensível, quando exposta a estas cenas durante cinco dias por semana, oito horas por dia, acaba se insensibilizando. Esta é a realidade do funcionário de um matadouro. Se estes são homens truculentos e rudes, é porque seu meio de vida os tornou assim. Certamente se estas pessoas conservassem sua sensibilidade, não seriam qualificados para seu
trabalho.
Mas seu trabalho somente existe porque alguém os paga para fazê-lo. Então o
funcionário do matadouro não deve ser visto como o único culpado pela morte
destes animais. O proprietário do abatedouro tampouco, porque ele apenas
mantém seu estabelecimento, já que alguém compra seus produtos. Os açougues
e supermercados a mesma coisa. Apenas quem pode impedir que estas mortes
continuem ocorrendo é o consumidor.
O consumidor sim, aquele que se sente desconfortável em visitar um matadouro que prefere não saber a verdade, se poupar de vislumbrar estas cenas, que
prefere esquecer que os pedaços de carne em peças eram um animal poucos dias
antes. Este sim é o verdadeiro responsável.
Estamos prontos para nos indignar com a matança de bebês foca no Canadá, com a caça de raposas para fazer casaco de pele ou com o consumo de carne de
cachorro na China. Estamos prontos para levantar bandeiras em defesa das
baleias, da Amazônia ou doar algum dinheiro para o Greenpeace. E todas estas
coisas de fato são importantes, mas estão muito distantes de nossa realidade
É fácil não ter um casaco de pele de raposa ou de foca, é fácil não ser
culpado da morte destes animais e é mais fácil ainda condenarmos a pessoa
que faz uso destes objetos.
Mas a morte de uma vaca, um suíno, um frango, ou seja lá qual for o animal,
não deveria receber consideração diferente apenas porque sua utilização é
tradicional segundo nosso ponto de vista. Qualquer pessoa que participe de
seu ciclo de exploração é culpado pela morte de um animal, seja ele nativo,
exótico, abundante ou esteja em vias de extinção. O fato de percebermos a
criação e morte de animais em matadouros como um fato banal apenas agrava
esta situação. Estes animais não viveram existências condizentes com os
hábitos de sua espécie e em determinado dia foram abatidos no campo. Eles
levaram vidas indescritivelmente sofridas e tiveram um fim doloroso. E se
isto não está errado, nada no mundo está.
Não me tornei vegetariano por haver presenciado as cenas que descrevi acima. Eu já o era há mais de 20 anos. Haver visitado alguns matadouros e
abatedouros de aves apenas serviu para fortalecer minha sensação de que eu
estava no caminho certo. Saber que não faço parte disto, de certa forma, me
confortava. Também me dava a certeza de que eu deveria dizer à s pessoas o
que vi, e da importância de se conscientizarem a respeito desses fatos.
Você ainda come cadáveres?
Não se envergonha disso?
SALVE VIDAS 3 VEZES POR DIA: NO CAFÉ DA MANHÃ, NO ALMOÇO E NO JANTAR. Seja mais um VEGETARIANO!
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Sérgio Greif - biólogo, pós-graduado em nutrição humana pela UNICAMP, autor do livro (com co-autoria do biólogo Thales Tréz) "A verdadeira face da experimentação animal", autor do livro "Alternativas ao uso de animais vivos na
colunista do site "Florais e Cia".
www.floraisecia.com.br
e-mail: sergio_greif@yahoo.com

A Publicação é autorizada, CONSERVANDO TODOS OS CRÉDITOS E
CITANDO A FONTE: site “Florais e Cia” – www.floraisecia.com.br

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